segunda-feira, 16 de junho de 2008

Neste Pé

Em Portugal a lei tem sempre duas faces. É assim como a moeda. Vejamos.

As alterações à Lei do Jogo aprovadas pelo Governo de coligação liderado por Santana Lopes, no final de 2004, foram feitas para que a Estoril-Sol ficasse com o imóvel do Casino de Lisboa no final da concessão, em 2020, uma situação que a lei anterior não permitia, sendo o Estado gravemente lesado com a mudança da lei. Este é o parecer da Procuradoria-Geral da República, entidade à qual cabe promover a acção penal. Mas que, neste particular, não promove por entender que o caso não é “desconforme” com o Estado de Direito.

O túnel do Terreiro do Paço do Metropolitano de Lisboa demorou 12 anos a construir, custou mais 31 milhões de euros do que os 47 milhões previstos, apesar dos atrasos e da derrapagem a empresa pagou regularmente prémios aos empreiteiros mas Portugal pode vir a ter que devolver milhões do financiamento da obra a Bruxelas. O Tribunal de Contas regista toda esta sucessão de atropelos mas julga que não se registaram “ilegalidades ou irregularidades”. Digamos que também este caso não é “desconforme”.

E é assim, em Portugal. Os casos acontecem mas é como se não acontecessem. E por mais casos que aconteçam as coisas ficam sempre “neste pé”, expressão peculiar do Estado que marca passo e não anda nem desanda. Neste contexto, o anunciado Conselho de Prevenção da Corrupção, uma visão um tanto enviesada do plano de prevenção da corrupção proposto por João Cravinho e rejeitado pelo PS, ameaça tornar-se em mais um elefante branco do imenso jardim zoológico do Estado. Serve para exibir aos visitantes do zoo, eventualmente para tocar a sineta, e pouco ou nada mais. De resto, continuará tudo “neste pé”.

jpguerra@economicasgps.com
http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/opinion/columnistas/pt/desarrollo/1135257.html

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Pobreza e Desigualdades

Mário Soares

Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com o Relatório da União Europeia (Eurostat) e o trabalho, coordenado pelo Prof. Alfredo Bruto da Costa, do Centro de Estudos para a Intervenção Social (CESIS), intitulado "Um olhar para a pobreza em Portugal", divulgados há dias, que coincidem em alertar para o facto de a "pobreza e as desigualdades sociais se estarem a agravar em Portugal". Surpreendido não fiquei. Mas chocado e entristecido, isso sim, por Portugal aparecer na cauda dos 25 países europeus - a Roménia e a Bulgária ainda não fazem parte da lista - nos índices dos diferentes países, quanto à pobreza e às desigualdades sociais e, sobretudo, quanto à insuficiência das políticas em curso para as combater.

Recentemente, cerca de 20 mil cidadãos portugueses, impulsionados pela Comissão Justiça e Paz, dirigiram à Assembleia da República um apelo aos legisladores para aprovarem uma Lei que considere a pobreza uma violação dos Direitos Humanos. Foi uma manifestação de consciência cívica e de justa preocupação moral - que partilho - quanto à pobreza crescente na sociedade portuguesa. E acrescento: a revolta quanto às escandalosas desigualdades sociais, que igualmente crescem, fazendo de Portugal, trinta e quatro anos depois da generosa Revolução dos Cravos, o país da União Europeia socialmente mais desigual e injusto, ombreando, à sua escala, naturalmente, com a América de Bush... Ora, a pobreza e a riqueza (ostensiva e muitas vezes inexplicável) são o verso e o reverso da mesma moeda e o espelho de uma sociedade a caminho de graves convulsões. Atenção, portanto.

Eu sei que o mal-estar social e as dificuldades relativas ao custo de vida que, hoje, gravemente afectam os pobres, mas também a classe média - e se tornaram, subitamente, muito visíveis, por força da comunicação social - vêm de fora e têm, evidentemente, causas externas. Entre outras: o aumento do preço do petróleo, que acaba de atingir 135 dólares o barril; a queda do dólar, moeda, até agora de referência; o subprime ou crédito malparado, em especial concedido à habitação (a bolha imobiliária); a falência inesperada de grandes bancos internacionais e as escandalosas remunerações que se atribuem os gestores e administradores; o aumento insólito do preço dos géneros alimentares de primeira necessidade (cereais, arroz, carne, peixe, frutas, legumes, leite, ovos, etc.); a desordem geostratégica internacional (com as guerras do Afeganistão, do Iraque e do Líbano, a instabilidade do Paquistão, o eterno conflito israelo-palestiniano e as guerras em África); o desequilíbrio ambiental que, a não ser de imediato corrigido, põe o Planeta em grande risco; a agressiva concorrência dos países emergentes, que antes não contavam; etc...

Tudo isto configura uma situação de crise profundíssima a que a globalização neoliberal conduziu o Mundo, como tantas vezes disse e escrevi. Uma crise financeira, em primeiro lugar, na América, que está a alargar-se à União Europeia, podendo vir a transformar-se, suponho, numa crise global deste "capitalismo do desastre", pior do que a de 1929. Uma crise também de civilização que está a obrigar-nos a mudar de paradigma, tendo em conta os países emergentes, e os seus problemas internos específicos, uma vez que o Ocidente está a deixar de ser o centro do mundo. Não alimentemos ilusões.

Claro que com o mal dos outros - como é costume dizer--se - podemos nós bem. É uma velha frase que hoje deixou, em muitos casos, de fazer sentido. Vivemos num só Mundo em que tudo se repercute e interage sobre tudo.

No entanto, no nosso canto europeu, deveremos fazer tudo o que pudermos, numa estratégia concertada e eficaz, para combater a pobreza - há muito a fazer, se houver vontade política para tanto - e também para reduzir drasticamente as desigualdades sociais. Até porque, como têm estado a demonstrar os países nórdicos - a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia - as políticas sociais sérias estimulam o crescimento, contribuem para aumentar a produção e favorecem novos investimentos. Este é o objectivo geostratégico para o qual deveremos caminhar, se quisermos evitar convulsões e conflitos.

Depois de duas décadas de neoliberalismo, puro e duro - tão do agrado de tantos que se dizem socialistas, como desgraçadamente Blair - uma boa parte da Esquerda dita moderada e europeia parece não ter ainda compreendido que o neoliberalismo está esgotado e prestes a ser enterrado, na própria América, após as próximas eleições presidenciais. A globalização tem de ser, aliás, seriamente regulada, bem como o mercado, que deve passar a respeitar regras éticas, sociais e ambientais.

Em Portugal, permito-me sugerir ao PS - e aos seus responsáveis - que têm de fazer uma reflexão profunda sobre as questões que hoje nos afligem mais: a pobreza; as desigualdades sociais; o descontentamento das classes médias; e as questões prioritárias, com elas relacionadas, como: a saúde, a educação, o desemprego, a previdência social, o trabalho. Essas são questões verdadeiramente prioritárias, sobre as quais importa actuar com políticas eficazes, urgentes e bem compreensíveis para as populações. Ainda durante este ano crítico de 2008 e no seguinte, se não quiserem pôr em causa tudo o que fizeram, e bem, indiscutivelmente, para reduzir o deficit das contas públicas e tentar modernizar a sociedade. Urge, igualmente, fortalecer o Estado, para os tempos que aí vêm, e não entregar a riqueza aos privados. Não serão, seguramente, eles que irão lutar, seriamente, contra a pobreza e reduzir drasticamente as desigualdades.

Já uma vez, nestes últimos anos, escrevi e agora repito: "Quem vos avisa vosso amigo é." Há que avançar rapidamente - e com acerto - na resolução destas questões essenciais, que tanto afectam a maioria dos portugueses. Se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda - e os seus líderes - continuarão a subir nas sondagens. Inevitavelmente. É o voto de protesto, que tanta falta fará ao PS em tempo de eleições. E mais sintomático ainda: no debate televisivo da SIC que fizeram os quatro candidatos a Presidentes do PPD/PSD, pelo menos dois deles só falaram nas desigualdades sociais e na pobreza, que importa combater eficazmente. Poderá isso relevar - dirão alguns - da pura demagogia. Mas é significativo. Do que sentem os portugueses. Não lhes parece?...|

Via : http://dn.sapo.pt/2008/05/27/opiniao/pobreza_e_desigualdades.html

Geostratégia em mudança

Bush está no fim.
Os Estados Unidos, felizmente, perderam as ilusões. As múltiplas crises que a globalização neoliberal, sob a hegemonia norte-americana, têm gerado, desacreditaram o sistema: o unilateralismo internacional, com a América do Norte, polícia do mundo – e a consequente marginalização das Nações Unidas – pertencem ao passado.
Assistimos ao nascimento de um outro mundo: multilateral, com vários países e blocos emergentes, concorrentes entre si, eventualmente conflituais, mas sujeitos às mesmas crises – terríveis, deste início de século –, e esperemos que se possam entender para lhes fazer face. Vivemos no mesmo mundo. O senso comum exige-o.
A opinião pública global começa a emergir e a ser actuante.
A crise toca-nos a todos, quase por igual. Sejam as alterações climáticas e as desordens ecológicas do planeta, seja a crise alimentar e o espectro da fome, seja a desregulação internacional, o terrorismo, os fanatismos religiosos, o acréscimo da violência ou a carência gritante de umas Nações Unidas incapazes de se reestruturar, na fidelidade à sua Carta, à Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos Objectivos do Milénio.
A América do Norte, a cinco meses da escolha de um novo Presidente, suscitou no Ocidente uma pausa reflexiva, que esperemos seja criadora. A União Europeia, que podia – e devia – antecipar-se, continua paralisada, dada a mediocridade e falta de audácia dos seus principais dirigentes. Sem rumo nem vontade.
Pelo contrário, a Ibero-América, tantos anos esmagada pela «colonização» do vizinho do Norte, passada a época das ditaduras dependentes, instruídas pelos chamados «boys de Chicago», aproveitou os anos da distracção provocados pela guerra do Iraque para consolidar as suas democracias e emergir em força.
A variedade ibero-americana, na unidade de duas línguas em expansão, que podem entender-se entre si – o espanhol e o português –, tem sido um factor de riqueza, com a inovação e o génio criador dos respectivos povos mesclados: brancos, índios, negros, mulatos, asiáticos.
O Brasil, que é um colosso, pela largueza e riqueza do território, pela densidade populacional e pelo génio do seu Povo, é um exemplo, nos últimos anos, de progresso e de boa governação. O México, outro país emergente, na fronteira dos Estados Unidos, busca um equilíbrio e uma independência económica ainda não completamente atingidos. A Argentina, o Chile, o Uruguai, diversificam as suas alianças e têm hoje relações comerciais significativas com novos investidores como a China, o Japão, o Canadá, sem esquecer obviamente a Europa.
A Venezuela, com as maiores reservas petrolíferas do mundo, irrita especialmente a administração Bush, com a qual Hugo Chávez não tem sido especialmente meigo. Tem criado uma rede de solidariedades que vai de Cuba, na complexidade da fase pós-Fidel, à Bolívia de Evo Morales, um indígena à frente de um Estado ibero-americano, ao Equador, ao Paraguai, ao Haiti e à Nicarágua, sob o signo do chamado «socialismo bolivariano». E tem relações económicas relevantes, não apenas no plano energético, com a Rússia, a China, o Canadá e o Irão.
Na União Europeia, é com a Península Ibérica – Portugal e Espanha – que a Venezuela se tem entendido melhor.
É natural. As raízes contam. Mas outros países europeus estão a procurar desenvolvê-las. Zapatero, no encontro de Lima, fez as pazes com Chávez, transmitindo-lhe uma mensagem apaziguadora do Rei. Foi importante. A senhora Merkel seguiu o exemplo. A geopolítica global está em mudança, regressando aos valores éticos essenciais.
Bem agiu José Sócrates quando, acompanhado de ministros, empresários e técnicos, fez uma visita histórica a Caracas, altamente produtiva para Portugal. Para além de tudo o mais – que é muito – temos cerca de 600 mil portugueses a viver e a trabalhar na Venezuela...
Via: http://aeiou.visao.pt/Opiniao/mariosoares/Pages/Geostrategiaemmudanca.aspx

Gasolina

Há dias escreveu-se aqui que o capitalismo era o maior libertador da história. A frase perturbou algumas almas sensíveis.
André Macedo

Compreende-se o escândalo. As palavras não são apenas o que elas dizem literalmente, são também as circunstâncias histórias que carregam e que, demasiadas vezes, contaminam a sua compreensão. Capitalismo e revolução, em pólos aparentemente opostos, são dois bons exemplos deste mal-entendido: há quem sinta o estômago às voltas só de as ouvir.
Não é caso para tanto. Quando se diz que o capitalismo liberta, não significa que se pretenda apagar os erros e os abusos do filho primogénito do capitalismo: o mercado. Seria ridículo e revelaria uma enorme ignorância. A exploração dos mais fracos nos países em vias de desenvolvimento confirma a imperfeição do mercado e das suas diversas manifestações, exportações e consequências. Não é sequer preciso ir tão longe para apontar os erros: os simples abusos das empresas nas economias desenvolvidas também reflectem as insuficiências do capitalismo. Mas daí não resulta a sua condenação à cadeira eléctrica. Significa apenas a necessidade de introduzir mecanismos de correcção dos seus falhanços. Ou seja, tribunais e reguladores que defendam, com equilíbrio, os interesses das pessoas.
Dito isto, repete-se o essencial: os mercados abertos e a concorrência – características que definem as democracias liberais – são poderosas sondas que atacam as bolsas de ineficiência, disciplinam as empresas e os governos, promovem a qualidade e o progresso. As manifestações do sucesso das economias abertas estão, por isso, todos os dias nas páginas dos jornais em grandes títulos ou em registos mais prosaicos. É o caso da guerra entre a Zon e a PT. Agora que as empresas se separaram, passou a haver mais concorrência entre os fornecedores de televisão. Quem ganha? O consumidor, claro, que hoje já recebe mais e melhor pelo mesmo preço.
No caso da gasolina o caso é mais intricado. Como resolver a escalada dos preços? Baixar o ISP seria uma solução desejável, mas é irrealista nos actuais dias de incerteza: o Governo não dividirá uma parte dos 2,8 mil milhões de receitas que conta receber este ano. Também seria uma monstruosidade intervir e condicionar o preço. A prazo, a consequência seria brutal e iríamos todos – com ou sem carro – pagar a factura. Sobra uma saída e uma esperança: confiar no regulador (AdC), que terá de manter-se alerta para ver se as gasolineiras estão a formar um cartel; e esperar que haja cada vez mais concorrência. A culpa não é da Galp. O problema é que só há uma Galp em Portugal. Com duas, só poderíamos estar melhor. Para os problemas de mercado há outro remédio: mais mercado.

Comentários

vg
Pura ingenuidade.Acha que a Zon e a "mãe" PT estão em concorrencia? O "triplay" da PT não era já conhecido dos chefes da Zon?A caixa "digital" da Zon não é uma tecnologia mais que conhecida ,que só peca por vir atrasada e cara?O que conseguiram foi este "faz de conta"de competição que, só é possível por falta de concorrencia a sério( gestão da Soanaecom é incomprensível).Se forem aos arquivos, verão que a Galp é ,há 50 anos ,líder do mercado e os outros vão ganhando o seu,comprando nas refinarias locais ,mantendo o "satus quo".Capitalismo de concorrencia?Querem maior escandalo do que o que se passou com o sector bancário?Este capitalismo não dispensa carteis e monopólios.Aliás previstos ,há mais de um século..

NapoLeão
Claro que a esta hora o camarada Karl Marx deve andar "aos pulos na sua sepultura londrina". Andassem os nossos ilustríssimos governates de metro, autocarro, comboio ou num Honda Jazz, Toyota Yaris, Renault Twingo e pagando dos seus bolsos e, perceberiam com a vida não está fácil. Mas como as deslocações são em Audis, BMW ou Mercedes pagos pelo orçamento, claro que não são sensíveis ao custo de vida. Já "ganharam o Céu" !!!

JOAMOR (joãodeamorim.amorim@gmail.com)
Deixemos o mercado funcionar e convençamo-nos de que os dias de ilusória prosperância já lá vão.Vamos passar a viver ao nivel das nossas possibilidades e lembremo-nos que ocupamos dos últimos lugares na Europa a 27 em termos de produtividade. Eu ando a pé, e nego-me a subsidiar gasolina para o pó pó daqueles que não se querem dar a essa chatisse.

Jose
Está enganado. Os 2,8 mil milhões de euros que o Estado recebe é que serão a morte da economia. O cadáver vai ficar sem sangue. Provar que há cartel? Sabe que está a lidar com as entidades mais poderosas do planeta? A BP, a Repsol, a Exxon, a Chevron, a Total ou a Shell mandam mais do que o Estado Americano....

Via: Diário Económico

Socialismo Liberal: Uma contradição?

As teorias económicas liberais são contra a ideia de utilizar os serviços públicos para alcançar uma maior igualdade e justiça sociais.

Raymond Plant

O actual tumulto no Partido Socialista francês (PS) prende-se com a questão de poder ou não haver uma forma de socialismo liberal. Ségolène Royal, primeiro-secretário do PS francês, e Bertrand Delanoe, presidente da Câmara de Paris, têm defendido que pode haver uma incorporação de princípios económicos e sociais liberais numa visão socialista da sociedade, enquanto que os seus críticos declaram que isso seria uma medida errónea, uma vez que os valores socialistas são a antítese dos liberais. E em qualquer caso, adiantam, o mundo sofre de uma multiplicidade de crises económicas e financeiras, cujas culpas atribuem ao liberalismo económico, pelo que seria uma péssima altura para pensar em incorporar princípios liberais nas posições socialistas. No entanto, será verdade que os valores liberais e os valores socialistas são mutuamente antitéticos? Na minha opinião, creio que há pelo menos um aspecto em que isso é falso e, na Grã-Bretanha, o New Labour (que está a passar por dificuldades devido ao ressurgimento do Partido Conservador) mostra-nos porquê. Tem sido postulado central do New Labour que os valores do moderno Partido Trabalhista são os mesmos que foram historicamente adoptados, incluindo as liberdades individuais, maiores igualdades sociais, o apoio às comunidades e maior justiça social. No entanto, tem também sido princípio central do New Labour poder haver ensinamentos a retirar do liberalismo económico, sobretudo no que diz respeito aos pontos de vista liberais sobre a contenção da burocracia, o que poderia melhorar os serviços públicos de que depende a concretização dos valores socialistas. O Labour está ainda empenhado em serviços públicos de alta qualidade, vendo-os como instrumentos para uma maior igualdade social, de maneira a que os pobres tenham acesso a escolas, médicos e hospitais de grande qualidade, e que tais serviços devem ser gratuitos.

Esta perspectiva não é, manifestamente, a da economia liberal. As teorias económicas liberais são contra a ideia de utilizar os serviços públicos para alcançar uma maior igualdade e justiça sociais e consideram que o papel dos serviços públicos e do Estado-providência deve ser limitado, até mesmo residual. Os economistas liberais defendem que o financiamento estatal dos serviços públicos deve tornar-se mais limitado e que devem privatizar-se cada vez mais serviços públicos, transformando o cidadão num cliente ou, pelo menos, num consumidor daquilo que se tornará basicamente um conjunto de bens privados a serem adquiridos no mercado por um preço, tal como quaisquer outros.

O New Labour tem uma perspectiva diferente. Quer serviços públicos de alta qualidade, mas acabou por acreditar que a melhor maneira de obter eficiência económica na crescente despesa pública, sobretudo em saúde e educação, é adoptar uma perspectiva neo-liberal num aspecto importante, o de incentivar a concorrência entre fornecedores de serviços. A ideia é a seguinte. O Estado continuaria a financiar os serviços públicos a níveis muito altos, em comparação com o passado, mas a fazê-lo cada vez menos em termos de provisão estatal directa aos hospitais e escolas, por exemplo. Em vez disso, os organismos do sector do voluntariado, incluindo as igrejas, as empresas sem fins lucrativos e mesmo as empresas privadas com fins lucrativos seriam encorajados a concorrer a contratos financiados pelo Estado. Ao subscrever um desses contratos por um período de tempo limitado, o fornecedor não estatal seria como uma empresa a operar num mercado, sujeita às pressões da concorrência, para fornecer um serviço de alta qualidade, de tal maneira que o contrato lhe possa vir a ser readjudicado após o termo. Deste modo, tal como noutro mercado qualquer, o receio da falência leva o fornecedor do serviço a dar mais atenção às necessidades do consumidor. Assim será também, defendem os pensadores do New Labour, no Estado-providência.

Os serviços públicos continuarão a ser financiados pelo Estado e a níveis mais altos do que tem acontecido até agora; continuarão a ser gratuitos no destino; mas a diferença é que a concorrência entre fornecedores de serviços deve impulsionar o desempenho, o que não é possível, defendem, num conjunto monolítico de serviços estatais prestados de modo burocrático. O Serviço Nacional de Saúde britânico é o terceiro empregador a nível mundial, a seguir ao Exército Vermelho da República Popular da China e à cadeia de lojas Wall Mart dos Estados Unidos. O argumento é que os valores que estiveram na base da criação do Serviço Nacional de Saúde britânico podem ser satisfeitos, com a diferença de que a prestação deve agora seguir uma lógica competitiva em vez de burocrática e monolítica. As finalidades socialistas ou, pelo menos, sociais-democráticas deste ponto de vista podem agora ser concretizadas por meio da lógica economista liberal. Esta mensagem está, agora, a concentrar e a dar que pensar às mentes dos reformadores do PS francês e o resultado de tal atitude pode muito bem ter efeitos em toda a UE.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Pobreza


Uma sociedade próspera não é uma sociedade “igual na pobreza”, mas desigual na riqueza. A única igualdade deve ser nas oportunidades.

João Marques de Almeida

Na última semana, a pobreza dominou a vida pública portuguesa. Mais uma vez, aqueles que governam o país há trinta anos, prometeram que a sua prioridade é lutar contra a pobreza. Seria caso para perguntar, o que andaram a fazer nas últimas três décadas? A verdade é que muitos deles acreditam genuinamente que tudo fizeram para combater a pobreza. E, de certo modo, estão certos. No entanto, o que fizeram, foi insuficiente. Em termos absolutos, Portugal está menos pobre do que estava no início dos anos de 1980, mas em termos relativos europeus continua pobre. Nada mudará, se não se fizerem mudanças radicais no modelo de desenvolvimento do país. O grave é que o debate da última semana mostra que não há vontade política para mudar. Como se Portugal estivesse marcado pelo síndroma dos Bourbons: nada aprenderam, nada esqueceram.

Há duas respostas dominantes. A primeira é ‘mais do mesmo’. Ou seja, políticas e ‘medidas’ para ‘ajudar’ os ‘pobres’. Há, contudo, uma grande diferença entre reduzir o sofrimento de quem é pobre e criar condições para se deixar de ser pobre. As ‘medidas’ todas de que se fala, aumentos do ordenado mínimo, subsídios, não acabam com a pobreza apenas melhoram um pouco a vida dos pobres. Não há até hoje algum exemplo em que o Estado tenha acabado com a pobreza. Mas, em Portugal, continua a acreditar-se no erro fatal: mais ‘Estado social’ significa menos pobreza. É exactamente o oposto. A história do século XX mostra que quanto maior foi a intervenção do Estado, mais aumentou a pobreza. Mesmo nos países escandinavos, onde o Estado fiscaliza uma distribuição justa da riqueza, é a sociedade que cria riqueza e o Estado limita-se a ser imparcial. A verdade é muito simples: só os pobres é que podem acabar com a pobreza. Querem combater a pobreza? Dêem oportunidades aos pobres para enriquecerem. Não os condenem, com pequenas ajudas, a continuar a serem pobres.

A verdade é que nem tudo é inocente. A ‘pobreza’ justifica um ‘Estado grande e pesado’. Por cada ‘pobre’, há um ‘funcionário’ que ‘combate’ a ‘pobreza’. Temos aqui um círculo vicioso: as forças políticas que se alimentam, com muita demagogia e muito populismo, da ‘pobreza’, precisam dos ‘pobres’ para aumentar o seu poder. Não é só a ‘pobreza’ que dá força à extrema-esquerda. É o poder da extrema-esquerda, nos sindicatos, nas corporações profissionais, na comunicação social, que impede as reformas necessárias para combater a ‘pobreza’. Eles sabem muito bem que se um dia Portugal fosse um país rico, eles desapareceriam da vida política. Basta olhar para o que se passa nos outros países europeus, começando com Espanha que nas últimas eleições afastou as forças radicais de esquerda do parlamento.

Chegamos assim à segunda resposta dominante quando se discute a pobreza: o ataque aos ricos e a elevação da igualdade a um princípio sacrossanto. Um dia, no auge do seu fervor revolucionário, Otelo Saraiva de Carvalho disse a Olaf Palme, o antigo líder social-democrata sueco: ‘em Portugal, queremos acabar com os ricos’. Respondeu Palme, ‘na Suécia, queremos acabar com os pobres’. A extrema-esquerda nacional continua a ser filha de Otelo. O ‘problema da pobreza’ é sempre um óptimo pretexto para atacar a riqueza e quem é rico. E temo que os próximos tempos sejam especialmente propícios a este tipo de populismo. E é um segundo erro fatal: sem riqueza, não é possível combater a pobreza.

Uma sociedade próspera não é uma sociedade ‘igual na pobreza’, mas desigual na riqueza. A única igualdade deve ser nas oportunidades. Tentar criar uma sociedade igualitária acabará por se transformar num totalitarismo social. A igualdade é própria dos regimes totalitários. As sociedades livres acabam, naturalmente, com a igualdade.

Uma aluna universitária, enamorada pelo socialismo, atacava frequentemente o seu pai por ser rico. Acusava-o de não dividir o seu dinheiro por aqueles que mais necessitavam. Um dia, farto das acusações, o pai perguntou à filha, boa aluna, as notas dos seus colegas. Sugeriu que ela desse três valores da sua média de 16 a todos aqueles que tinham 10, e assim acabariam todos com média de 13. Ele respondeu: ‘nem pensar, eu fartei-me de estudar e eles andaram o tempo todo na brincadeira’.
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João Marques de Almeida, Doutorado em Relações Internacionais


Comentários

LOPES CARLOS
1. É normal a diferença de rendimentos entre os diferentes grupos sociais.
2. As novas classes e grupos/categorias sociais existentes na sociedade post-industrial também apresentam naturalmente essas diferenças de rendimentos.
3. No caso de Portugal, o que é de lamentar é a enorme diferença entre os rendimentos dos 20°/° mais ricos e dos 20°/° mais pobres. Com efeito, Portugal é o Estado da UE-25 que apresenta a maior desigualdade na distribuição de rendimentos. É o único País da UE-25 que consegue ser pior do que os EUA, conforme resulta dum Relatório da UE, publicado em 22 de Maio de 2008.

vg
Pobres deste país, estudem nas "novas oportunidades",apostem no "crédito online",criem a vossa "empresa na hora" e um dia ainda podem chegar à "comissão de remunerações" de um grande banco. Só os vencidos aceitam "rendimentos mínimos"...

Via:
http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/opinion/columnistas/pt/index.html

sábado, 31 de maio de 2008

Ritual

Tornou-se uma espécie de ritual: todos os anos, por esta altura da Primavera, a Amnistia Internacional publica o seu relatório anual sobre o estado dos Direitos Humanos no mundo para concluir que o desrespeito é generalizado.

De acordo com o relatório deste ano, 81 países usam a tortura, 54 promovem julgamentos injustos, em 77 não há liberdade de expressão; a China tem a “reeducação” dos dissidentes, a Rússia também cultiva a intolerância com a dissidência, os EUA têm o seu Dachau em Guantánamo e mais um número indeterminado de campos de concentração secretos, com a colaboração de estados da União Europeia, Portugal tem a violência policial, acrescida agora da violência doméstica e da cumplicidade com os chamados “voos da CIA”.

Mas apesar deste panorama tenebroso, os Direitos Humanos deixaram der ser um cavalo de batalha do chamado mundo ocidental e civilizado. A questão dos Direitos Humanos, consagrada numa Declaração Universal há 60 anos, foi meramente instrumental, usada apenas como mais uma arma do arsenal da guerra-fria. O chamado Ocidente puxava o gatilho dos Direitos Humanos para encurralar os países comunistas mas não mais voltou a apontar essa arma contra as turvas ditaduras “amigas” ou “de conveniência”.

E para além disso acontece que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não é apenas desrespeitada no plano dos direitos políticos mas, acima de tudo e ainda mais generalizadamente, no campo dos direitos económicos e sociais. E ninguém parece dar conta da violação diária e cada dia mais sofisticada dos Direitos Humanos ao trabalho com “remuneração equitativa e satisfatória”, à saúde e ao bem-estar, à educação gratuita, etc. Nem mesmo a Amnistia Internacional.

jpguerra@economicasgps.com
Via: http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/opinion/columnistas/pt/desarrollo/1129235.html

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Energia Geotérmica

Grande parte da electricidade consumida pode vir da terra.

Dentro de duas décadas, Portugal poderá produzir energia geotérmica suficiente para fornecer electricidade a grande parte do país, através de uma forma inovadora de aproveitar o calor da terra.

O projecto, hoje apresentado, é pioneiro em Portugal e baseia-se em sistemas geotérmicos estimulados, que permitem produzir energia eléctrica de forma renovável, limpa para o ambiente e praticamente inesgotável.
"Estamos a falar de 500 MW em dez anos, algo mais rápido e mais barato do que uma central nuclear", afirmou João Gabriel Silva, aos jornalistas.

O antigo dirigente da Quercus e actual presidente dos conselhos científico e directivo da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra (FCTUC) sublinha que "Portugal tem um potencial de produção de energia geotérmica enorme, capaz de garantir todas as necessidades energéticas do país".

O projecto envolve a FCTUC e a empresa Geovita, do grupo Patris Capital, que prevê investir meio milhão de euros só nos primeiros três anos - a fase de prospecção e pesquisa de uma área delimitada, situada na região Centro.

"Acreditamos que num horizonte de três a cinco anos, estejamos já a produzir energia eléctrica através do calor da terra", referiu Gonçalo Pereira Coutinho, presidente do conselho de administração da Patris Capital.
Se tudo correr como previsto, disse à Lusa João Gabriel Silva, "dentro de 20 anos, a maior parte da energia eléctrica do país será produzida através da energia geotérmica".

As unidades de produção geotérmica estimulada podem ser instaladas, "sem impacto ambiental, em praticamente todo o lado, e com baixos custos de investimento", acrescentou.
A diferença entre a produção tradicional de energia geotérmica e a estimulada reside no facto de, nesta, a água ser injectada a partir da superfície.
Ao ser injectada para um furo, que pode atingir cinco a seis quilómetros de profundidade, a água abre fracturas na rocha e espalha-se por zonas a 200 ou mais graus de temperatura. Evapora-se e sobe então à superfície, através de um segundo furo, alimentando assim o funcionamento de um gerador.

O projecto já mereceu parecer técnico favorável da Direcção Geral de Energia e Geologia, aguardando apenas autorização para o exclusivo de prospecção e pesquisa de uma área de 500 Km2, situada entre Oliveira do Hospital (Coimbra) e Nelas.

Diário Digital / Lusa
27-05-2008 19:24:32

Modelo de Tratar Doenças "Falhou"

Ronald Klatz

A medicina centrada no tratamento de doenças «falhou» e por isso o caminho a adoptar terá que ser a prevenção, defendeu hoje o «pai» do termo medicina anti-envelhecimento, o norte-americano Ronald Klatz.

Presente no primeiro Congresso Ibérico Anual sobre medicina anti-envelhecimento, a decorrer até sábado no Estoril, o especialista contou à Lusa a dificuldade que teve em fundar a Academia Americana de Medicina Anti-Envelhecimento por os próprios médicos acharem que os efeitos do tempo eram irreversíveis.

«Os críticos diziam ser uma heresia tratar a idade como uma doença», lembrou Klatz, acrescentando que muitos dos especialistas que colaboraram inicialmente chegaram a perder fundos para investigação.

No entanto, 90 por cento das horas da prática médica é gasta em doenças provocadas pela idade (diabetes, patologias cardiovasculares ou neurológicas), contra os 10 por cento investidas em problemas infecciosos e genéticos que afectam maioritariamente jovens, argumentou.

A própria medicina anti-envelhecimento acaba por ser exercida por todos os médicos: «trata-se de prevenir, detectar e tratar precocemente».
«A Medicina anti-envelhecimento é um eufemismo para os avanços nas medicina, como os exames tecnológicos, e não é uma molécula que se quer manter ultra-secreta», assegurou à Lusa.

«Não vamos esperar que uma pessoa sofra um ataque cardíaco quando os primeiros sinais podem surgir 30 anos antes, nem que um cancro se desenvolva porque se for detectado precocemente é curável em 95 por cento das situações», exemplificou.

Sobre a ideia que o anti-envelhecimento se reduz às questões estéticas, o médico responde que apenas 20 por cento da equação desta medicina diz respeito a essas preocupações.
«O que se quer é que as pessoas também estejam bem e bonitas por dentro, mas também ninguém quer parecer um fóssil», afirmou.

Klatz sublinhou que «não está nas mãos das pessoas a imortalidade» até porque a «marcha do relógio não se pode parar», mas pode-se garantir maior qualidade de vida através de medicamentos inovadores e do «estilo de vida anti-envelhecimento.

Estudos referem já que a geração «baby-boom» (nascidos na década de 1960) poderá viver até aos 100 anos «com grande qualidade de vida» se aproveitar a «revolução» clínica, ser «auto-herói e não esperar pelos médicos», seguir uma boa alimentação com anti-oxidantes, fazer exercício, dormir bem e mentir sobre a idade.
«Quando se diz que se está velho, é porque se está a desistir e fica-se pronto para ir para o túmulo», resumiu.

A «revolução» na medicina passa também pelo uso das células estaminais, «que não só tratam, como curam».
«Não há qualquer argumento válido, apenas político, para que não se utilizem. Não se trata de matar bebés, porque podem ser usadas células da placenta e os embriões usados em tratamentos de fertilização, que de outra maneira seriam deitados fora», disse.

Via: Diário Digital / Lusa

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Bons Exemplos


Eva Gaspar
egaspar@mediafin.pt

O presidente do Banco Central Europeu (BCE) apelou hoje aos executivos das empresas europeias para que evitem "dar maus exemplos", decidindo para si aumentos salariais superiores aos acordados para os demais trabalhadores das respectivas empresas.


"É legítimo questionar os aumentos de determinados salários que são, já de si, muito expressivos". A moderação salarial "é válida para todos, sem excepção", sublinhou em entrevista hoje publicada pela revista francesa "L’Express".


O apelo de Jean-Claude Trichet, enquadrado na batalha que o BCE está a travar contra a inflação, surge na sequência dos protestos dos ministros das Finanças da Zona Euro e de alguns banqueiros centrais, caso do holandês e do britânico, que acusam os executivos de estarem a reservar para si aumentos salariais e prémios desproporcionados, quando a generalidade das empresas cotadas perdeu valor de mercado e está a por travões à massa salarial.


Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo chegou mesmo a classificar de "escandalosos" os aumentos salariais atribuídos a diversos administradores de empresas, tendo prometido estudar formas de os evitar, designadamente por via de um aumento da carga fiscal sobre os prémios.
O BCE tem feito saber que a evolução salarial na "casa" tem sido consistente com os apelos de moderação da autoridade monetária. O salário-base do seu presidente aumentou 2% no ano passado, menos do que a taxa média de inflação, passando de 338.472 euros anuais para 345.252 euros.
Ainda assim, Trichet ganha consideravelmente mais do que o seu homólogo dos Estados Unidos – país onde é especialmente expressivo o "fosso" entre os salários dos executivos e dos demais trabalhadores.

Ben Bernanke, presidente da Fed, aufere 191.300 dólares/ano (cerca de 130 mil euros), segundo a ForexNews.


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