por Emiliano Brancaccio [*]
entrevistado por Waldemar Bolze
O sr. sustenta que a crise financeira não é um fenómeno puramente técnico, mas tem uma causa social. Por que?
O ponto de partida é a fraqueza do movimento trabalhista, a qual tornou possível um mundo de salários baixos. Contudo, este muto é estruturalmente instável, o que estamos agora principiando a experimentar. Hoje todos os países tentam manter o nível de salário baixo, diminuindo portanto a procura interna, e têm de encontrar mercados externos para os seus próprios produtos.
Este mecanismo funcionou durante os últimos dez anos porque os Estados Unidos funcionaram como um "aspirador" para os produtos excedentes de outros países. E não porque os salários dos trabalhadores fossem demasiado altos e sim porque foi acumulada uma enorme dívida privada nos EUA. O sistema levou a trabalhadores a pagarem suas dívidas hipotecárias com novos empréstimos e a pagarem os juros dos empréstimos com novos cartões de crédito.
Poderia uma estrutura de crédito realmente tão frágil manter-se?
Isto não era senão um bomba relógio, a qual explodiu agora. As consequências são mais uma vez passadas aos trabalhadores e empregados, ao passo que os executivos da Wall Street, que fabricaram estes explosivos, podem até mesmo lucrar com isso.
Tome, por exemplo, o plano Paulson. Ele estipula que o governo vai comprar os activos arriscados dos bancos de investimento e em troca colocar dinheiro fresco à sua disposição, deixando a possibilidade de que os bancos, uma vez passada a tempestade, possam recuperar os seus títulos. Se o governo pagar preços bastante altos, os banqueiros podem finalmente embolsar um lindo lucro a expensas do orçamento do Estado.
Qual o impacto óbvio que terá esta crise?
Dependerá muito da sua duração e profundidade. Por enquanto, o establishment está a seguir uma estratégia que Giuseppe Tomasi di Lampedusa descreveu no seu livro O Leopardo: "Se quisermos que tudo permaneça na mesma, temos de mudar alguma coisa". O plano Paulson é um exemplo desta estratégia, porque consiste numa permuta de cash por dívidas, concebida para intervir o menos possível em termos de propriedade e de controle do capital bancário. O mesmo se aplica às vendas de acções preferenciais ao governo porque este restringe o direito de voto nas assembleias de accionistas.
Será que a ideologia do neoliberalismo fracassou e que os dias do capitalismo estão contados?
A ideia é divertida, mas seria ingénuo assumir um fim iminente do capitalismo. Não posso ver como tal coisa possa materializar-se. O grande ausente neste colossal estado de emergência é precisamente o movimento trabalhista. Ao invés disso, vejo a possibilidade de uma mudança no poder relativo dos lobbies das finanças para grupos de pressão política e também de lobbies ocidentais e americanos para outros asiáticos.
Podemos então falar do declínio do império americano?
Apesar da aparência e de todas as altas temporárias e dos acontecimentos a curto prazo, o declínio americano tem-se verificado de há pelo menos um quarto de século. Um sintoma deste declínio é o comportamento a longo prazo do dólar, cujo preço – convertido à divisa de hoje – em 20 anos caiu de 1,50 euro para cerca de 70 centavos de euro. Este declínio assegura desconfiança em relação ao dólar e provavelmente impedirá os EUA de desempenharem novamente o papel de "aspirador" para os produtos excedentes de outros países. Uma vez que não há um poder hegemónico internacional alternativo, há um perigo de que o sistema monetário internacional venha a encontrar-se num beco sem saída. Neste caso, o desenvolvimento desta crise poderia ganhar características realmente negras e imprevisíveis.
A entrevista original em alemão foi publicada em junge Welt , de 09/Outubro/2008.
[*] Professor de economia do trabalho na Universidade de Sannio, membro da Rifondazione Comunista, e conselheiro da maior federação italiana de sindicatos metalúrgicos, a FIOM-CGIL.
A versão em inglês encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/bolze091008.html
Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
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terça-feira, 28 de outubro de 2008
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
As Sete Vacas, Magrérrimas
por Guillermo Almeyra [*]
O suposto País das Maravilhas caiu no período atroz das pragas e das vacas magras. A actual crise financeira que abala os Estados Unidos e os restantes grandes centros capitalistas – e afecta duramente os da periferia – é apenas o começo de uma grande recessão e de uma depressão. Dar dinheiro aos banqueiros é lançá-lo num poço sem fundo. Porque o problema consiste em que a redução dos salários reais e a carestia reduzem o consumo, pois os consumidores super endividados temem pelo seu futuro e tratam de poupar e de consumir menos. Assim, as dívidas não podem ser pagas e ninguém se arrisca a dar crédito, as fábricas ao não venderem todos os seus produtos suspendem pessoal ou despedem-no, a desocupação alimenta a espiral recessiva, os emigrantes são expulsos ou perdem seu trabalho, o consumo de petróleo de outras matérias-primas é menor e seu preço cai, levando a crise aos sectores capitalistas extractivos ou agrícolas.
Com o derrube da União Soviética e o boom capitalista na China, o capital havia conseguido um enorme mercado de mão-de-obra cujos salários baixíssimos serviam para fazer baixar também os dos países industriais, seja por levarem as fábricas para a China, Vietnam ou os ex países "socialistas" da Europa oriental, seja por chantagearem os trabalhadores locais com essa ameaça. A transformação da China de uma grande potência que fabricava produtos de consumo baratos numa grande potência financeira que sustenta as finanças dos Estados Unidos e investe nesse país deu um duro golpe no capitalismo estado-unidense. Seus produtos de consumo não puderam competir com os salários chineses, suas fábricas e maquiladoras transferiram-se para o Oriente, inclusive a partir de países com salários baixíssimos como o México ou a Guatemala que se converteram em expulsores de mão-de-obra para os Estados Unidos. Este endividou-se e teve um défice comercial e também financeiro crescente. O crédito baratíssimo e a falta de controles sobre a especulação hipotecária e financeira alentaram o crescimento da bolha e a ideia dos cidadãos de que tudo ia bem e iria ainda melhor porque o país era sólido, uma grande potência e podia fazer qualquer coisa, sem excepção.
Tudo isso acabou, tal como depois da guerra acabou-se o poderio da libra esterlina e da Inglaterra como primeira potência financeira e industrial mundial. É certo que a unificação capitalista do mercado mundial faz com que a Rússia se quiser vender gás e petróleo (e armamentos) tenha de preocupar-se em evitar o colapso dos grandes países industriais e que se a China quiser exportar e cobrar seus títulos estado-unidenses deva preocupar-se pela manutenção do consumo no Estados Unidos, de modo que os competidores de Washington estão ligados ao futuro estado-unidense como ladrões atados por uma mesma corda. Mas o facto é que os Estados Unidos dependem da China, da União Europeia, da Rússia e não estes dos EUA. O omnipotência dá lugar à negociação-competição conflitiva de modo permanente. Washington hoje está em liberdade vigiada.
Seu futuro depende, como o de todas as outras potências, de que o capitalismo não caia por si só. Ou seja, de que não haja nenhuma força importante que compreenda que capitalismo, crise, guerra e desastre ambiental são uma só e a mesma coisa, provocada por uma mesma classe e um mesmo tipo de políticas e que não são inevitáveis nem resultados da perversidade do Senhor.
Falta então o coveiro do capitalismo. De modo que o provável é que a China, em vez de vender seus activos em dólares e por as suas reservas em outra moeda, sustentará os Estados Unidos, tentando ao mesmo tempo retirar alguma vantagem da crise. Porque se não exportasse bens de consumo para os Estados Unidos e a UE, suas fábricas fechariam, aumentaria a desocupação e poderiam surgir greves e sublevações camponesas. Mas, ao mesmo tempo, a crise no Ocidente é sobretudo uma crise do sector que produz alta tecnologia e bens de produção, o qual deixa à China margem para o seu desenvolvimento no referido sector, passando a ser uma grande potência tecnológica, financeira, industrial e comercial dentro de mais uns poucos anos. Nos anos 30, Franklin Roosevelt retirou os Estados Unidos do poço mediante grandes obras públicas keynesianas, concessões sociais importantes e a preparação da guerra mundial. A China poderia, só ou com a ajudar militar e técnica da Rússia, combater a contaminação, elevar os rendimentos, criar uma grande indústria pesada e um grande sector tecnológico de ponta. O centro do capitalismo mundial deslocar-se-ia assim, num futuro não muito longinquo, para o Oriente e os Estados Unidos voltariam então a ser uma grande potência regional, aumentando sua pressão sobre um continente que ameaça escapar-lhe.
Acerca dos efeitos da crise na América Latina será necessário voltar. Mas, em geral, muitos países serão afectados pela redução das remessas dos migrantes e abalados socialmente porque a migração será menor e reduzir-se-á essa válvula de escape que evitava explosões sociais. Além disso cairão os preços das matérias-primas agrícolas e mineiras e algo do petróleo, ainda que este seja mais escasso porque seus preços menores tornarão muito custosos os desenvolvimentos das jazidas de alto mar (como as brasileiras). Finalmente, agudizar-se-á a disputa pelos rendimentos entre os diferentes sectores capitalistas, por um lado, e entre os capitalistas e os trabalhadores e os pobres, pelo outro, enquanto a tendência à integração, ao desenvolvimento do mercado interno e a "viver com o que se tem" aumentará e a aceitação da ideologia neoliberal receberá um golpe duro.
[*] Doutor em Ciências Políticas (Univ. París VIII), professor investigador da Universidade Autónoma Metropolitana, unidade Xochimilco, do México, professor de Política Contemporânea da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México.
O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2008/10/05/index.php?section=opinion&article=016a1pol
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
O suposto País das Maravilhas caiu no período atroz das pragas e das vacas magras. A actual crise financeira que abala os Estados Unidos e os restantes grandes centros capitalistas – e afecta duramente os da periferia – é apenas o começo de uma grande recessão e de uma depressão. Dar dinheiro aos banqueiros é lançá-lo num poço sem fundo. Porque o problema consiste em que a redução dos salários reais e a carestia reduzem o consumo, pois os consumidores super endividados temem pelo seu futuro e tratam de poupar e de consumir menos. Assim, as dívidas não podem ser pagas e ninguém se arrisca a dar crédito, as fábricas ao não venderem todos os seus produtos suspendem pessoal ou despedem-no, a desocupação alimenta a espiral recessiva, os emigrantes são expulsos ou perdem seu trabalho, o consumo de petróleo de outras matérias-primas é menor e seu preço cai, levando a crise aos sectores capitalistas extractivos ou agrícolas.
Com o derrube da União Soviética e o boom capitalista na China, o capital havia conseguido um enorme mercado de mão-de-obra cujos salários baixíssimos serviam para fazer baixar também os dos países industriais, seja por levarem as fábricas para a China, Vietnam ou os ex países "socialistas" da Europa oriental, seja por chantagearem os trabalhadores locais com essa ameaça. A transformação da China de uma grande potência que fabricava produtos de consumo baratos numa grande potência financeira que sustenta as finanças dos Estados Unidos e investe nesse país deu um duro golpe no capitalismo estado-unidense. Seus produtos de consumo não puderam competir com os salários chineses, suas fábricas e maquiladoras transferiram-se para o Oriente, inclusive a partir de países com salários baixíssimos como o México ou a Guatemala que se converteram em expulsores de mão-de-obra para os Estados Unidos. Este endividou-se e teve um défice comercial e também financeiro crescente. O crédito baratíssimo e a falta de controles sobre a especulação hipotecária e financeira alentaram o crescimento da bolha e a ideia dos cidadãos de que tudo ia bem e iria ainda melhor porque o país era sólido, uma grande potência e podia fazer qualquer coisa, sem excepção.
Tudo isso acabou, tal como depois da guerra acabou-se o poderio da libra esterlina e da Inglaterra como primeira potência financeira e industrial mundial. É certo que a unificação capitalista do mercado mundial faz com que a Rússia se quiser vender gás e petróleo (e armamentos) tenha de preocupar-se em evitar o colapso dos grandes países industriais e que se a China quiser exportar e cobrar seus títulos estado-unidenses deva preocupar-se pela manutenção do consumo no Estados Unidos, de modo que os competidores de Washington estão ligados ao futuro estado-unidense como ladrões atados por uma mesma corda. Mas o facto é que os Estados Unidos dependem da China, da União Europeia, da Rússia e não estes dos EUA. O omnipotência dá lugar à negociação-competição conflitiva de modo permanente. Washington hoje está em liberdade vigiada.
Seu futuro depende, como o de todas as outras potências, de que o capitalismo não caia por si só. Ou seja, de que não haja nenhuma força importante que compreenda que capitalismo, crise, guerra e desastre ambiental são uma só e a mesma coisa, provocada por uma mesma classe e um mesmo tipo de políticas e que não são inevitáveis nem resultados da perversidade do Senhor.
Falta então o coveiro do capitalismo. De modo que o provável é que a China, em vez de vender seus activos em dólares e por as suas reservas em outra moeda, sustentará os Estados Unidos, tentando ao mesmo tempo retirar alguma vantagem da crise. Porque se não exportasse bens de consumo para os Estados Unidos e a UE, suas fábricas fechariam, aumentaria a desocupação e poderiam surgir greves e sublevações camponesas. Mas, ao mesmo tempo, a crise no Ocidente é sobretudo uma crise do sector que produz alta tecnologia e bens de produção, o qual deixa à China margem para o seu desenvolvimento no referido sector, passando a ser uma grande potência tecnológica, financeira, industrial e comercial dentro de mais uns poucos anos. Nos anos 30, Franklin Roosevelt retirou os Estados Unidos do poço mediante grandes obras públicas keynesianas, concessões sociais importantes e a preparação da guerra mundial. A China poderia, só ou com a ajudar militar e técnica da Rússia, combater a contaminação, elevar os rendimentos, criar uma grande indústria pesada e um grande sector tecnológico de ponta. O centro do capitalismo mundial deslocar-se-ia assim, num futuro não muito longinquo, para o Oriente e os Estados Unidos voltariam então a ser uma grande potência regional, aumentando sua pressão sobre um continente que ameaça escapar-lhe.
Acerca dos efeitos da crise na América Latina será necessário voltar. Mas, em geral, muitos países serão afectados pela redução das remessas dos migrantes e abalados socialmente porque a migração será menor e reduzir-se-á essa válvula de escape que evitava explosões sociais. Além disso cairão os preços das matérias-primas agrícolas e mineiras e algo do petróleo, ainda que este seja mais escasso porque seus preços menores tornarão muito custosos os desenvolvimentos das jazidas de alto mar (como as brasileiras). Finalmente, agudizar-se-á a disputa pelos rendimentos entre os diferentes sectores capitalistas, por um lado, e entre os capitalistas e os trabalhadores e os pobres, pelo outro, enquanto a tendência à integração, ao desenvolvimento do mercado interno e a "viver com o que se tem" aumentará e a aceitação da ideologia neoliberal receberá um golpe duro.
[*] Doutor em Ciências Políticas (Univ. París VIII), professor investigador da Universidade Autónoma Metropolitana, unidade Xochimilco, do México, professor de Política Contemporânea da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México.
O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2008/10/05/index.php?section=opinion&article=016a1pol
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
A Crise Financeira Global Tem Uma causa Social
A crise financeira global tem uma causa social: os baixos salários mundiais
por Emiliano Brancaccio [*]
entrevistado por Waldemar Bolze
O sr. sustenta que a crise financeira não é um fenómeno puramente técnico, mas tem uma causa social. Por que?
O ponto de partida é a fraqueza do movimento trabalhista, a qual tornou possível um mundo de salários baixos. Contudo, este muto é estruturalmente instável, o que estamos agora principiando a experimentar. Hoje todos os países tentam manter o nível de salário baixo, diminuindo portanto a procura interna, e têm de encontrar mercados externos para os seus próprios produtos.
Este mecanismo funcionou durante os últimos dez anos porque os Estados Unidos funcionaram como um "aspirador" para os produtos excedentes de outros países. E não porque os salários dos trabalhadores fossem demasiado altos e sim porque foi acumulada uma enorme dívida privada nos EUA. O sistema levou a trabalhadores a pagarem suas dívidas hipotecárias com novos empréstimos e a pagarem os juros dos empréstimos com novos cartões de crédito.
Poderia uma estrutura de crédito realmente tão frágil manter-se?
Isto não era senão um bomba relógio, a qual explodiu agora. As consequências são mais uma vez passadas aos trabalhadores e empregados, ao passo que os executivos da Wall Street, que fabricaram estes explosivos, podem até mesmo lucrar com isso.
Tome, por exemplo, o plano Paulson. Ele estipula que o governo vai comprar os activos arriscados dos bancos de investimento e em troca colocar dinheiro fresco à sua disposição, deixando a possibilidade de que os bancos, uma vez passada a tempestade, possam recuperar os seus títulos. Se o governo pagar preços bastante altos, os banqueiros podem finalmente embolsar um lindo lucro a expensas do orçamento do Estado.
Qual o impacto óbvio que terá esta crise?
Dependerá muito da sua duração e profundidade. Por enquanto, o establishment está a seguir uma estratégia que Giuseppe Tomasi di Lampedusa descreveu no seu livro O Leopardo: "Se quisermos que tudo permaneça na mesma, temos de mudar alguma coisa". O plano Paulson é um exemplo desta estratégia, porque consiste numa permuta de cash por dívidas, concebida para intervir o menos possível em termos de propriedade e de controle do capital bancário. O mesmo se aplica às vendas de acções preferenciais ao governo porque este restringe o direito de voto nas assembleias de accionistas.
Será que a ideologia do neoliberalismo fracassou e que os dias do capitalismo estão contados?
A ideia é divertida, mas seria ingénuo assumir um fim iminente do capitalismo. Não posso ver como tal coisa possa materializar-se. O grande ausente neste colossal estado de emergência é precisamente o movimento trabalhista. Ao invés disso, vejo a possibilidade de uma mudança no poder relativo dos lobbies das finanças para grupos de pressão política e também de lobbies ocidentais e americanos para outros asiáticos.
Podemos então falar do declínio do império americano?
Apesar da aparência e de todas as altas temporárias e dos acontecimentos a curto prazo, o declínio americano tem-se verificado de há pelo menos um quarto de século. Um sintoma deste declínio é o comportamento a longo prazo do dólar, cujo preço – convertido à divisa de hoje – em 20 anos caiu de 1,50 euro para cerca de 70 centavos de euro. Este declínio assegura desconfiança em relação ao dólar e provavelmente impedirá os EUA de desempenharem novamente o papel de "aspirador" para os produtos excedentes de outros países. Uma vez que não há um poder hegemónico internacional alternativo, há um perigo de que o sistema monetário internacional venha a encontrar-se num beco sem saída. Neste caso, o desenvolvimento desta crise poderia ganhar características realmente negras e imprevisíveis.
A entrevista original em alemão foi publicada em junge Welt , de 09/Outubro/2008.
[*] Professor de economia do trabalho na Universidade de Sannio, membro da Rifondazione Comunista, e conselheiro da maior federação italiana de sindicatos metalúrgicos, a FIOM-CGIL.
A versão em inglês encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/bolze091008.html
Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
por Emiliano Brancaccio [*]
entrevistado por Waldemar Bolze
O sr. sustenta que a crise financeira não é um fenómeno puramente técnico, mas tem uma causa social. Por que?
O ponto de partida é a fraqueza do movimento trabalhista, a qual tornou possível um mundo de salários baixos. Contudo, este muto é estruturalmente instável, o que estamos agora principiando a experimentar. Hoje todos os países tentam manter o nível de salário baixo, diminuindo portanto a procura interna, e têm de encontrar mercados externos para os seus próprios produtos.
Este mecanismo funcionou durante os últimos dez anos porque os Estados Unidos funcionaram como um "aspirador" para os produtos excedentes de outros países. E não porque os salários dos trabalhadores fossem demasiado altos e sim porque foi acumulada uma enorme dívida privada nos EUA. O sistema levou a trabalhadores a pagarem suas dívidas hipotecárias com novos empréstimos e a pagarem os juros dos empréstimos com novos cartões de crédito.
Poderia uma estrutura de crédito realmente tão frágil manter-se?
Isto não era senão um bomba relógio, a qual explodiu agora. As consequências são mais uma vez passadas aos trabalhadores e empregados, ao passo que os executivos da Wall Street, que fabricaram estes explosivos, podem até mesmo lucrar com isso.
Tome, por exemplo, o plano Paulson. Ele estipula que o governo vai comprar os activos arriscados dos bancos de investimento e em troca colocar dinheiro fresco à sua disposição, deixando a possibilidade de que os bancos, uma vez passada a tempestade, possam recuperar os seus títulos. Se o governo pagar preços bastante altos, os banqueiros podem finalmente embolsar um lindo lucro a expensas do orçamento do Estado.
Qual o impacto óbvio que terá esta crise?
Dependerá muito da sua duração e profundidade. Por enquanto, o establishment está a seguir uma estratégia que Giuseppe Tomasi di Lampedusa descreveu no seu livro O Leopardo: "Se quisermos que tudo permaneça na mesma, temos de mudar alguma coisa". O plano Paulson é um exemplo desta estratégia, porque consiste numa permuta de cash por dívidas, concebida para intervir o menos possível em termos de propriedade e de controle do capital bancário. O mesmo se aplica às vendas de acções preferenciais ao governo porque este restringe o direito de voto nas assembleias de accionistas.
Será que a ideologia do neoliberalismo fracassou e que os dias do capitalismo estão contados?
A ideia é divertida, mas seria ingénuo assumir um fim iminente do capitalismo. Não posso ver como tal coisa possa materializar-se. O grande ausente neste colossal estado de emergência é precisamente o movimento trabalhista. Ao invés disso, vejo a possibilidade de uma mudança no poder relativo dos lobbies das finanças para grupos de pressão política e também de lobbies ocidentais e americanos para outros asiáticos.
Podemos então falar do declínio do império americano?
Apesar da aparência e de todas as altas temporárias e dos acontecimentos a curto prazo, o declínio americano tem-se verificado de há pelo menos um quarto de século. Um sintoma deste declínio é o comportamento a longo prazo do dólar, cujo preço – convertido à divisa de hoje – em 20 anos caiu de 1,50 euro para cerca de 70 centavos de euro. Este declínio assegura desconfiança em relação ao dólar e provavelmente impedirá os EUA de desempenharem novamente o papel de "aspirador" para os produtos excedentes de outros países. Uma vez que não há um poder hegemónico internacional alternativo, há um perigo de que o sistema monetário internacional venha a encontrar-se num beco sem saída. Neste caso, o desenvolvimento desta crise poderia ganhar características realmente negras e imprevisíveis.
A entrevista original em alemão foi publicada em junge Welt , de 09/Outubro/2008.
[*] Professor de economia do trabalho na Universidade de Sannio, membro da Rifondazione Comunista, e conselheiro da maior federação italiana de sindicatos metalúrgicos, a FIOM-CGIL.
A versão em inglês encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/bolze091008.html
Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
Génese da Crise
por Alejandro Nadal
A Reserva Federal arrisca-se cada vez mais e agora anuncia planos para comprar dívida de curto prazo às empresas. Isso distorce cada vez mais sua função original e revela a gravidade da situação. A ferocidade da crise, é claro, obriga a uma análise mais cuidadosa sobre a sua génese e a agenda política que lhe corresponde.
Em Janeiro de 1980 o governo estado-unidense autorizou o resgate da companhia automobilística Chrysler, que se encontrava em dificuldades desde 1975 devido à recessão. Os dirigentes da companhia propuseram um plano ao governo para reestruturar a empresa, fechando fábricas, reduzindo salários e cortando benefícios. Tudo isto seria feito com a ajuda da burocracia sindical.
Nos anos seguintes a Chrysler fechou 28 fábricas nos Estados Unidos, despediu 48 mil operários (de um total de 98 mil). Outros 20 mil empregados também perderam o seu emprego. Os mais jovens e militantes foram os primeiros a ser despedidos, ao passo que a burocracia sindical era recompensada. Numa manobra apresentada como exemplo de colaboração entre trabalhadores e empresa, o secretário do sindicato converteu-se em membro do conselho de directores da companhia.
Em Agosto de 1981 o sindicato de controladores aéreos profissionais dos Estados Unidos desencadeou uma greve em busca de aumentos salariais e melhores condições de trabalho. O sindicato estava a violar uma lei que proibia empregados federais de recorrerem à greve. O então presidente Reagan decidiu que isto era uma ameaça para a segurança nacional e enviou um ultimatum: ou regressavam ao trabalho em 48 horas ou seriam despedidos. Só uma minoria obedeceu e foram despedidos mais de 11 mil controladores. O sindicato perdeu seu registo em Outubro desse ano.
Estes dois episódios marcaram o princípio de uma ofensiva profunda contra os sindicatos nos Estados Unidos. O resultado principal foi o declínio dos sindicatos nesse país: entre 1977 e 1997 a percentagem da força de trabalho empregada com filiação sindical passou de 25 por cento a 14 por cento. O grande aliado do capital foi a chamada flexibilização laboral e, em especial, a eliminação de restrições para despedir trabalhadores (o sistema ficou conhecido pela frase hire and fire, contrata e despede). Outra arma contra os sindicatos foi a ameaça de perderem empregos devido ao livre comércio. A retórica das empresas era clara: se os sindicatos não reduzem suas exigências, perderemos a batalha da competitividade, fecharemos e todos sairão perdendo. A burocracia sindical acomodou-se, abandonando a busca de melhores condições laborais para cooperar com os patrões e o governo.
Em resultado, o salário mínimo e os contratuais sofreram uma redução de quase 10 por cento durante o período de 1979 a 1997. Seguiu-se uma modesta recuperação depois de 1998, o que permitiu recuperar o nível de 1979 em 2003. Contudo, a partir desse ano os salários retomaram sua tendência descendente. Ao longo destes anos intensificou-se a precariedade do trabalho e deteriorou-se a qualidade do emprego.
Durante este período histórico verifica-se um extraordinário incremento da desigualdade nos Estados Unidos. Entre 1973 e 1990 a produtividade manteve-se estagnada, mas entre 1995 e 2005 aumentou em 30 por cento. Contudo, os benefícios desse aumento foram para os estratos mais ricos: os 20 por cento mais privilegiados da força de trabalho activa viram seus rendimentos reais aumentar 30 por cento. Ao mesmo tempo, a queda no salário real dos 20 por cento mais desfavorecidos foi de 22 por cento.
Esta perda de poder aquisitivo do salário é parte importante das origens da crise actual, porque teve de ser compensada com endividamento privado para manter níveis artificiais de procura efectiva. Toda uma geração não teve outro remédio senão endividar-se para manter seus níveis de consumo. As bolhas que atenuaram os efeitos negativos dos ciclos de negócios são apenas um aspecto deste endividamento.
O capitalismo estado-unidense reagiu contra o movimento sindical e a classe trabalhadora porque a queda na rentabilidade a partir dos anos 70 obrigou a limitar as remunerações ao trabalho. Deste modo, o sonho americano foi sacrificado no altar do capital. Há muitos dados que permitem documentar o que foi dito, mas tudo isto conduz a outra pergunta: por que caíram os níveis de rentabilidade? Os níveis de capacidade instalada nesta etapa da acumulação do capital sem dúvida estão relacionados com esta evolução da rentabilidade. Mas isto não é suficiente e este tipo de análise só desloca o problema para leva a uma última interrogação: carregará o capitalismo nas suas entranhas a semente da sua própria destruição? A agenda política que decorre desta reflexão obriga a colocar o problema das alternativas ao capitalismo, tema injustificadamente relegado a um rincão obscuro desde há 20 anos.
08/Outubro/2008
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2008/10/08/index.php?section=opinion&article=030a1eco
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
A Reserva Federal arrisca-se cada vez mais e agora anuncia planos para comprar dívida de curto prazo às empresas. Isso distorce cada vez mais sua função original e revela a gravidade da situação. A ferocidade da crise, é claro, obriga a uma análise mais cuidadosa sobre a sua génese e a agenda política que lhe corresponde.
Em Janeiro de 1980 o governo estado-unidense autorizou o resgate da companhia automobilística Chrysler, que se encontrava em dificuldades desde 1975 devido à recessão. Os dirigentes da companhia propuseram um plano ao governo para reestruturar a empresa, fechando fábricas, reduzindo salários e cortando benefícios. Tudo isto seria feito com a ajuda da burocracia sindical.
Nos anos seguintes a Chrysler fechou 28 fábricas nos Estados Unidos, despediu 48 mil operários (de um total de 98 mil). Outros 20 mil empregados também perderam o seu emprego. Os mais jovens e militantes foram os primeiros a ser despedidos, ao passo que a burocracia sindical era recompensada. Numa manobra apresentada como exemplo de colaboração entre trabalhadores e empresa, o secretário do sindicato converteu-se em membro do conselho de directores da companhia.
Em Agosto de 1981 o sindicato de controladores aéreos profissionais dos Estados Unidos desencadeou uma greve em busca de aumentos salariais e melhores condições de trabalho. O sindicato estava a violar uma lei que proibia empregados federais de recorrerem à greve. O então presidente Reagan decidiu que isto era uma ameaça para a segurança nacional e enviou um ultimatum: ou regressavam ao trabalho em 48 horas ou seriam despedidos. Só uma minoria obedeceu e foram despedidos mais de 11 mil controladores. O sindicato perdeu seu registo em Outubro desse ano.
Estes dois episódios marcaram o princípio de uma ofensiva profunda contra os sindicatos nos Estados Unidos. O resultado principal foi o declínio dos sindicatos nesse país: entre 1977 e 1997 a percentagem da força de trabalho empregada com filiação sindical passou de 25 por cento a 14 por cento. O grande aliado do capital foi a chamada flexibilização laboral e, em especial, a eliminação de restrições para despedir trabalhadores (o sistema ficou conhecido pela frase hire and fire, contrata e despede). Outra arma contra os sindicatos foi a ameaça de perderem empregos devido ao livre comércio. A retórica das empresas era clara: se os sindicatos não reduzem suas exigências, perderemos a batalha da competitividade, fecharemos e todos sairão perdendo. A burocracia sindical acomodou-se, abandonando a busca de melhores condições laborais para cooperar com os patrões e o governo.
Em resultado, o salário mínimo e os contratuais sofreram uma redução de quase 10 por cento durante o período de 1979 a 1997. Seguiu-se uma modesta recuperação depois de 1998, o que permitiu recuperar o nível de 1979 em 2003. Contudo, a partir desse ano os salários retomaram sua tendência descendente. Ao longo destes anos intensificou-se a precariedade do trabalho e deteriorou-se a qualidade do emprego.
Durante este período histórico verifica-se um extraordinário incremento da desigualdade nos Estados Unidos. Entre 1973 e 1990 a produtividade manteve-se estagnada, mas entre 1995 e 2005 aumentou em 30 por cento. Contudo, os benefícios desse aumento foram para os estratos mais ricos: os 20 por cento mais privilegiados da força de trabalho activa viram seus rendimentos reais aumentar 30 por cento. Ao mesmo tempo, a queda no salário real dos 20 por cento mais desfavorecidos foi de 22 por cento.
Esta perda de poder aquisitivo do salário é parte importante das origens da crise actual, porque teve de ser compensada com endividamento privado para manter níveis artificiais de procura efectiva. Toda uma geração não teve outro remédio senão endividar-se para manter seus níveis de consumo. As bolhas que atenuaram os efeitos negativos dos ciclos de negócios são apenas um aspecto deste endividamento.
O capitalismo estado-unidense reagiu contra o movimento sindical e a classe trabalhadora porque a queda na rentabilidade a partir dos anos 70 obrigou a limitar as remunerações ao trabalho. Deste modo, o sonho americano foi sacrificado no altar do capital. Há muitos dados que permitem documentar o que foi dito, mas tudo isto conduz a outra pergunta: por que caíram os níveis de rentabilidade? Os níveis de capacidade instalada nesta etapa da acumulação do capital sem dúvida estão relacionados com esta evolução da rentabilidade. Mas isto não é suficiente e este tipo de análise só desloca o problema para leva a uma última interrogação: carregará o capitalismo nas suas entranhas a semente da sua própria destruição? A agenda política que decorre desta reflexão obriga a colocar o problema das alternativas ao capitalismo, tema injustificadamente relegado a um rincão obscuro desde há 20 anos.
08/Outubro/2008
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2008/10/08/index.php?section=opinion&article=030a1eco
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
domingo, 24 de agosto de 2008
Chegará a vez deles
Baptista Bastos
b.bastos@netcabo.pt
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No conflito que opõe a Geórgia à Rússia as explicações não parecem ser tão lineares quanto a comunicação social portuguesa nos propõe. Apesar de todo o cuidado posto nas frases, Carlos Santos Pereira foi, até agora, o único comentador que esclareceu a natureza da pendência.
Vou tentar resumir: desde 1990 que as Nações Unidas tutelam a Ossetia do Sul, e, desde 2003, os Estados Unidos têm um peão no presidente da Geórgia, Mikheil Saakachvili, o que permite a constituição de uma espécie de tenaz proliferante, com pontos "amigáveis" na Ucrânia, e a ameaça de instalação, pelos americanos, do sistema antimísseis, na República Checa e na Polónia.
Como retaliação, os russos anunciam apontar os seus mísseis à Ucrânia e à Polónia. Junte-se-lhe a questão dos combustíveis e adivinhar-se-á a crispação internacional, colocada ante uma outra face de uma outra Guerra Fria.
No "Diário de Notícias", Santos Pereira esclarece, citando George Friedman, director do Observatório de Análise Geopolítica: "Pela primeira vez desde o colapso da União Soviética, os russos lançaram uma acção militar decidida, e impuseram uma situação militar.
Fizeram-no de forma unilateral, e os países que olhavam para o Ocidente, para intimidar a Rússia, vêem-se agora obrigados a ter em conta o que aconteceu."
Tudo leva a crer que a exibição de força russa conduzirá a um recuo dos Estados Unidos.
Este é o eixo do problema. Sabe-se que, tanto na Ucrânia como na Geórgia, a intervenção dos americanos não se limitou ao envio de centenas de "assessores" militares: o investimento, naqueles países, de milhões e milhões de dólares não são demonstrações de compaixão nem expressões de solidariedade.
Seja quem for o próximo presidente, o legado deixado por Bush revela-se um bico-de-obra de difícil solução. E adiante-se que nenhum dos dois intervenientes está disposto à humilhação de uma derrota desacreditante. Por outro lado, a política externa francesa já exprimiu a gravidade do caso, ao mesmo tempo que inflecte para o lado da razão russa. Fê-lo com o melindre que o assunto envolve. Mas fê-lo.
Há uma extraordinária superficialidade no tratamento destas crises, por parte dos jornais, das rádios e das televisões portuguesas. A grande rábula da designada "visão ocidental dos acontecimentos" encobre ignorância, leviandade e cumplicidade.
A autêntica "visão" será a da procura da "verdade", o que quer que esta palavra hoje signifique. De facto, em todos os conflitos não existe uma razão unilateral. As responsabilidades cabem a muitas partes, inclusive aquelas que não aparecem à luz do dia. E não há "distanciação" possível quando a beligerância, nascida sempre de manobras políticas, atinge níveis como os registados nesta guerra.
Raras vezes a Imprensa (não só a portuguesa, mas sobretudo a portuguesa) foi ao fundo das questões. E o anticomunismo ainda se não desvaneceu do espírito da esmagadora maioria dos "comentadores", como se não houvesse outros e novos e surpreendentes temas e teses a merecer a sua atenção. O preconceito obnubila qualquer sentido crítico, por mais ténue que ele seja. Eles falam e escrevem como se o comunismo não tivesse acabado. Ou não acabou? Ou como se a Rússia estivesse a desenvolver potencialmente uma espécie de niilismo, resultante da nostalgia comunista. Tudo isto é ridículo.
A perspectiva na qual se colocam os "colunistas" permite que os consideremos ou ineptos, ou preguiçosos, ou ignorantes. Ou isso tudo, com canalhice à mistura.
Estamos a assistir a acontecimentos de conclusões imprevisíveis. A liberdade tem sido espezinhada em nome de uma paz falaciosa. Pouco sabemos, com rigor, das grandes transformações por que passa parte substancial da América Latina, e das dificuldades tremendas com que se deparam os governos não submissos ao "diktat" dos EUA.
A nossa comunicação social, neste como em numerosos e vários casos, emudece, ou faz pender a balança da informação e da análise para um só lado. Não é só um erro profissional: é uma estrebaria moral, um ultraje deontológico e uma perfídia abjecta.
O descrédito que tombou sobre a nossa Imprensa, a quebra avassaladora das tiragens, deve-se, grandemente, à perda dessa unidade fundamental entre o jornal e o leitor.
Muitos portugueses lêem e falam francês, inglês e alemão.
É absurdo ignorar esta vertente do conhecimento. Encontram na Imprensa estrangeira o que nem por sombras é publicado na de cá. Haverá "felicidades diferentes", como reconhecia Camus.
Porém, verdades impostas pela multiplicação de manipulações, de omissões e de enganos, são difíceis de manter por tempo excessivo. Entre a separação e a comunhão, o leitor avisado tem escolhido a primeira.
A semelhança entre os jornais, a ausência de causas, a uniformidade do estilo, a "distanciação", a morte da paixão em favor da gelidez da prosa, o mesmo registo filosófico e análogas "linhas" editoriais afugentaram milhares e milhares de leitores. Ancilosados na superstição de que aquilo que escrevem faz opinião, muitos directores de jornais (e lembro-me, neste momento, de alguns, por igual desprezíveis) não entendem que, mais cedo ou mais tarde, os seus "serviços" serão dispensados.
Chegará a vez deles. Para parafrasear um famoso editorial do "Jornal Novo".
b.bastos@netcabo.pt
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No conflito que opõe a Geórgia à Rússia as explicações não parecem ser tão lineares quanto a comunicação social portuguesa nos propõe. Apesar de todo o cuidado posto nas frases, Carlos Santos Pereira foi, até agora, o único comentador que esclareceu a natureza da pendência.
Vou tentar resumir: desde 1990 que as Nações Unidas tutelam a Ossetia do Sul, e, desde 2003, os Estados Unidos têm um peão no presidente da Geórgia, Mikheil Saakachvili, o que permite a constituição de uma espécie de tenaz proliferante, com pontos "amigáveis" na Ucrânia, e a ameaça de instalação, pelos americanos, do sistema antimísseis, na República Checa e na Polónia.
Como retaliação, os russos anunciam apontar os seus mísseis à Ucrânia e à Polónia. Junte-se-lhe a questão dos combustíveis e adivinhar-se-á a crispação internacional, colocada ante uma outra face de uma outra Guerra Fria.
No "Diário de Notícias", Santos Pereira esclarece, citando George Friedman, director do Observatório de Análise Geopolítica: "Pela primeira vez desde o colapso da União Soviética, os russos lançaram uma acção militar decidida, e impuseram uma situação militar.
Fizeram-no de forma unilateral, e os países que olhavam para o Ocidente, para intimidar a Rússia, vêem-se agora obrigados a ter em conta o que aconteceu."
Tudo leva a crer que a exibição de força russa conduzirá a um recuo dos Estados Unidos.
Este é o eixo do problema. Sabe-se que, tanto na Ucrânia como na Geórgia, a intervenção dos americanos não se limitou ao envio de centenas de "assessores" militares: o investimento, naqueles países, de milhões e milhões de dólares não são demonstrações de compaixão nem expressões de solidariedade.
Seja quem for o próximo presidente, o legado deixado por Bush revela-se um bico-de-obra de difícil solução. E adiante-se que nenhum dos dois intervenientes está disposto à humilhação de uma derrota desacreditante. Por outro lado, a política externa francesa já exprimiu a gravidade do caso, ao mesmo tempo que inflecte para o lado da razão russa. Fê-lo com o melindre que o assunto envolve. Mas fê-lo.
Há uma extraordinária superficialidade no tratamento destas crises, por parte dos jornais, das rádios e das televisões portuguesas. A grande rábula da designada "visão ocidental dos acontecimentos" encobre ignorância, leviandade e cumplicidade.
A autêntica "visão" será a da procura da "verdade", o que quer que esta palavra hoje signifique. De facto, em todos os conflitos não existe uma razão unilateral. As responsabilidades cabem a muitas partes, inclusive aquelas que não aparecem à luz do dia. E não há "distanciação" possível quando a beligerância, nascida sempre de manobras políticas, atinge níveis como os registados nesta guerra.
Raras vezes a Imprensa (não só a portuguesa, mas sobretudo a portuguesa) foi ao fundo das questões. E o anticomunismo ainda se não desvaneceu do espírito da esmagadora maioria dos "comentadores", como se não houvesse outros e novos e surpreendentes temas e teses a merecer a sua atenção. O preconceito obnubila qualquer sentido crítico, por mais ténue que ele seja. Eles falam e escrevem como se o comunismo não tivesse acabado. Ou não acabou? Ou como se a Rússia estivesse a desenvolver potencialmente uma espécie de niilismo, resultante da nostalgia comunista. Tudo isto é ridículo.
A perspectiva na qual se colocam os "colunistas" permite que os consideremos ou ineptos, ou preguiçosos, ou ignorantes. Ou isso tudo, com canalhice à mistura.
Estamos a assistir a acontecimentos de conclusões imprevisíveis. A liberdade tem sido espezinhada em nome de uma paz falaciosa. Pouco sabemos, com rigor, das grandes transformações por que passa parte substancial da América Latina, e das dificuldades tremendas com que se deparam os governos não submissos ao "diktat" dos EUA.
A nossa comunicação social, neste como em numerosos e vários casos, emudece, ou faz pender a balança da informação e da análise para um só lado. Não é só um erro profissional: é uma estrebaria moral, um ultraje deontológico e uma perfídia abjecta.
O descrédito que tombou sobre a nossa Imprensa, a quebra avassaladora das tiragens, deve-se, grandemente, à perda dessa unidade fundamental entre o jornal e o leitor.
Muitos portugueses lêem e falam francês, inglês e alemão.
É absurdo ignorar esta vertente do conhecimento. Encontram na Imprensa estrangeira o que nem por sombras é publicado na de cá. Haverá "felicidades diferentes", como reconhecia Camus.
Porém, verdades impostas pela multiplicação de manipulações, de omissões e de enganos, são difíceis de manter por tempo excessivo. Entre a separação e a comunhão, o leitor avisado tem escolhido a primeira.
A semelhança entre os jornais, a ausência de causas, a uniformidade do estilo, a "distanciação", a morte da paixão em favor da gelidez da prosa, o mesmo registo filosófico e análogas "linhas" editoriais afugentaram milhares e milhares de leitores. Ancilosados na superstição de que aquilo que escrevem faz opinião, muitos directores de jornais (e lembro-me, neste momento, de alguns, por igual desprezíveis) não entendem que, mais cedo ou mais tarde, os seus "serviços" serão dispensados.
Chegará a vez deles. Para parafrasear um famoso editorial do "Jornal Novo".
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Pobreza e Desigualdades
Mário Soares
Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com o Relatório da União Europeia (Eurostat) e o trabalho, coordenado pelo Prof. Alfredo Bruto da Costa, do Centro de Estudos para a Intervenção Social (CESIS), intitulado "Um olhar para a pobreza em Portugal", divulgados há dias, que coincidem em alertar para o facto de a "pobreza e as desigualdades sociais se estarem a agravar em Portugal". Surpreendido não fiquei. Mas chocado e entristecido, isso sim, por Portugal aparecer na cauda dos 25 países europeus - a Roménia e a Bulgária ainda não fazem parte da lista - nos índices dos diferentes países, quanto à pobreza e às desigualdades sociais e, sobretudo, quanto à insuficiência das políticas em curso para as combater.
Recentemente, cerca de 20 mil cidadãos portugueses, impulsionados pela Comissão Justiça e Paz, dirigiram à Assembleia da República um apelo aos legisladores para aprovarem uma Lei que considere a pobreza uma violação dos Direitos Humanos. Foi uma manifestação de consciência cívica e de justa preocupação moral - que partilho - quanto à pobreza crescente na sociedade portuguesa. E acrescento: a revolta quanto às escandalosas desigualdades sociais, que igualmente crescem, fazendo de Portugal, trinta e quatro anos depois da generosa Revolução dos Cravos, o país da União Europeia socialmente mais desigual e injusto, ombreando, à sua escala, naturalmente, com a América de Bush... Ora, a pobreza e a riqueza (ostensiva e muitas vezes inexplicável) são o verso e o reverso da mesma moeda e o espelho de uma sociedade a caminho de graves convulsões. Atenção, portanto.
Eu sei que o mal-estar social e as dificuldades relativas ao custo de vida que, hoje, gravemente afectam os pobres, mas também a classe média - e se tornaram, subitamente, muito visíveis, por força da comunicação social - vêm de fora e têm, evidentemente, causas externas. Entre outras: o aumento do preço do petróleo, que acaba de atingir 135 dólares o barril; a queda do dólar, moeda, até agora de referência; o subprime ou crédito malparado, em especial concedido à habitação (a bolha imobiliária); a falência inesperada de grandes bancos internacionais e as escandalosas remunerações que se atribuem os gestores e administradores; o aumento insólito do preço dos géneros alimentares de primeira necessidade (cereais, arroz, carne, peixe, frutas, legumes, leite, ovos, etc.); a desordem geostratégica internacional (com as guerras do Afeganistão, do Iraque e do Líbano, a instabilidade do Paquistão, o eterno conflito israelo-palestiniano e as guerras em África); o desequilíbrio ambiental que, a não ser de imediato corrigido, põe o Planeta em grande risco; a agressiva concorrência dos países emergentes, que antes não contavam; etc...
Tudo isto configura uma situação de crise profundíssima a que a globalização neoliberal conduziu o Mundo, como tantas vezes disse e escrevi. Uma crise financeira, em primeiro lugar, na América, que está a alargar-se à União Europeia, podendo vir a transformar-se, suponho, numa crise global deste "capitalismo do desastre", pior do que a de 1929. Uma crise também de civilização que está a obrigar-nos a mudar de paradigma, tendo em conta os países emergentes, e os seus problemas internos específicos, uma vez que o Ocidente está a deixar de ser o centro do mundo. Não alimentemos ilusões.
Claro que com o mal dos outros - como é costume dizer--se - podemos nós bem. É uma velha frase que hoje deixou, em muitos casos, de fazer sentido. Vivemos num só Mundo em que tudo se repercute e interage sobre tudo.
No entanto, no nosso canto europeu, deveremos fazer tudo o que pudermos, numa estratégia concertada e eficaz, para combater a pobreza - há muito a fazer, se houver vontade política para tanto - e também para reduzir drasticamente as desigualdades sociais. Até porque, como têm estado a demonstrar os países nórdicos - a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia - as políticas sociais sérias estimulam o crescimento, contribuem para aumentar a produção e favorecem novos investimentos. Este é o objectivo geostratégico para o qual deveremos caminhar, se quisermos evitar convulsões e conflitos.
Depois de duas décadas de neoliberalismo, puro e duro - tão do agrado de tantos que se dizem socialistas, como desgraçadamente Blair - uma boa parte da Esquerda dita moderada e europeia parece não ter ainda compreendido que o neoliberalismo está esgotado e prestes a ser enterrado, na própria América, após as próximas eleições presidenciais. A globalização tem de ser, aliás, seriamente regulada, bem como o mercado, que deve passar a respeitar regras éticas, sociais e ambientais.
Em Portugal, permito-me sugerir ao PS - e aos seus responsáveis - que têm de fazer uma reflexão profunda sobre as questões que hoje nos afligem mais: a pobreza; as desigualdades sociais; o descontentamento das classes médias; e as questões prioritárias, com elas relacionadas, como: a saúde, a educação, o desemprego, a previdência social, o trabalho. Essas são questões verdadeiramente prioritárias, sobre as quais importa actuar com políticas eficazes, urgentes e bem compreensíveis para as populações. Ainda durante este ano crítico de 2008 e no seguinte, se não quiserem pôr em causa tudo o que fizeram, e bem, indiscutivelmente, para reduzir o deficit das contas públicas e tentar modernizar a sociedade. Urge, igualmente, fortalecer o Estado, para os tempos que aí vêm, e não entregar a riqueza aos privados. Não serão, seguramente, eles que irão lutar, seriamente, contra a pobreza e reduzir drasticamente as desigualdades.
Já uma vez, nestes últimos anos, escrevi e agora repito: "Quem vos avisa vosso amigo é." Há que avançar rapidamente - e com acerto - na resolução destas questões essenciais, que tanto afectam a maioria dos portugueses. Se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda - e os seus líderes - continuarão a subir nas sondagens. Inevitavelmente. É o voto de protesto, que tanta falta fará ao PS em tempo de eleições. E mais sintomático ainda: no debate televisivo da SIC que fizeram os quatro candidatos a Presidentes do PPD/PSD, pelo menos dois deles só falaram nas desigualdades sociais e na pobreza, que importa combater eficazmente. Poderá isso relevar - dirão alguns - da pura demagogia. Mas é significativo. Do que sentem os portugueses. Não lhes parece?...|
Via : http://dn.sapo.pt/2008/05/27/opiniao/pobreza_e_desigualdades.html
Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com o Relatório da União Europeia (Eurostat) e o trabalho, coordenado pelo Prof. Alfredo Bruto da Costa, do Centro de Estudos para a Intervenção Social (CESIS), intitulado "Um olhar para a pobreza em Portugal", divulgados há dias, que coincidem em alertar para o facto de a "pobreza e as desigualdades sociais se estarem a agravar em Portugal". Surpreendido não fiquei. Mas chocado e entristecido, isso sim, por Portugal aparecer na cauda dos 25 países europeus - a Roménia e a Bulgária ainda não fazem parte da lista - nos índices dos diferentes países, quanto à pobreza e às desigualdades sociais e, sobretudo, quanto à insuficiência das políticas em curso para as combater.
Recentemente, cerca de 20 mil cidadãos portugueses, impulsionados pela Comissão Justiça e Paz, dirigiram à Assembleia da República um apelo aos legisladores para aprovarem uma Lei que considere a pobreza uma violação dos Direitos Humanos. Foi uma manifestação de consciência cívica e de justa preocupação moral - que partilho - quanto à pobreza crescente na sociedade portuguesa. E acrescento: a revolta quanto às escandalosas desigualdades sociais, que igualmente crescem, fazendo de Portugal, trinta e quatro anos depois da generosa Revolução dos Cravos, o país da União Europeia socialmente mais desigual e injusto, ombreando, à sua escala, naturalmente, com a América de Bush... Ora, a pobreza e a riqueza (ostensiva e muitas vezes inexplicável) são o verso e o reverso da mesma moeda e o espelho de uma sociedade a caminho de graves convulsões. Atenção, portanto.
Eu sei que o mal-estar social e as dificuldades relativas ao custo de vida que, hoje, gravemente afectam os pobres, mas também a classe média - e se tornaram, subitamente, muito visíveis, por força da comunicação social - vêm de fora e têm, evidentemente, causas externas. Entre outras: o aumento do preço do petróleo, que acaba de atingir 135 dólares o barril; a queda do dólar, moeda, até agora de referência; o subprime ou crédito malparado, em especial concedido à habitação (a bolha imobiliária); a falência inesperada de grandes bancos internacionais e as escandalosas remunerações que se atribuem os gestores e administradores; o aumento insólito do preço dos géneros alimentares de primeira necessidade (cereais, arroz, carne, peixe, frutas, legumes, leite, ovos, etc.); a desordem geostratégica internacional (com as guerras do Afeganistão, do Iraque e do Líbano, a instabilidade do Paquistão, o eterno conflito israelo-palestiniano e as guerras em África); o desequilíbrio ambiental que, a não ser de imediato corrigido, põe o Planeta em grande risco; a agressiva concorrência dos países emergentes, que antes não contavam; etc...
Tudo isto configura uma situação de crise profundíssima a que a globalização neoliberal conduziu o Mundo, como tantas vezes disse e escrevi. Uma crise financeira, em primeiro lugar, na América, que está a alargar-se à União Europeia, podendo vir a transformar-se, suponho, numa crise global deste "capitalismo do desastre", pior do que a de 1929. Uma crise também de civilização que está a obrigar-nos a mudar de paradigma, tendo em conta os países emergentes, e os seus problemas internos específicos, uma vez que o Ocidente está a deixar de ser o centro do mundo. Não alimentemos ilusões.
Claro que com o mal dos outros - como é costume dizer--se - podemos nós bem. É uma velha frase que hoje deixou, em muitos casos, de fazer sentido. Vivemos num só Mundo em que tudo se repercute e interage sobre tudo.
No entanto, no nosso canto europeu, deveremos fazer tudo o que pudermos, numa estratégia concertada e eficaz, para combater a pobreza - há muito a fazer, se houver vontade política para tanto - e também para reduzir drasticamente as desigualdades sociais. Até porque, como têm estado a demonstrar os países nórdicos - a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia - as políticas sociais sérias estimulam o crescimento, contribuem para aumentar a produção e favorecem novos investimentos. Este é o objectivo geostratégico para o qual deveremos caminhar, se quisermos evitar convulsões e conflitos.
Depois de duas décadas de neoliberalismo, puro e duro - tão do agrado de tantos que se dizem socialistas, como desgraçadamente Blair - uma boa parte da Esquerda dita moderada e europeia parece não ter ainda compreendido que o neoliberalismo está esgotado e prestes a ser enterrado, na própria América, após as próximas eleições presidenciais. A globalização tem de ser, aliás, seriamente regulada, bem como o mercado, que deve passar a respeitar regras éticas, sociais e ambientais.
Em Portugal, permito-me sugerir ao PS - e aos seus responsáveis - que têm de fazer uma reflexão profunda sobre as questões que hoje nos afligem mais: a pobreza; as desigualdades sociais; o descontentamento das classes médias; e as questões prioritárias, com elas relacionadas, como: a saúde, a educação, o desemprego, a previdência social, o trabalho. Essas são questões verdadeiramente prioritárias, sobre as quais importa actuar com políticas eficazes, urgentes e bem compreensíveis para as populações. Ainda durante este ano crítico de 2008 e no seguinte, se não quiserem pôr em causa tudo o que fizeram, e bem, indiscutivelmente, para reduzir o deficit das contas públicas e tentar modernizar a sociedade. Urge, igualmente, fortalecer o Estado, para os tempos que aí vêm, e não entregar a riqueza aos privados. Não serão, seguramente, eles que irão lutar, seriamente, contra a pobreza e reduzir drasticamente as desigualdades.
Já uma vez, nestes últimos anos, escrevi e agora repito: "Quem vos avisa vosso amigo é." Há que avançar rapidamente - e com acerto - na resolução destas questões essenciais, que tanto afectam a maioria dos portugueses. Se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda - e os seus líderes - continuarão a subir nas sondagens. Inevitavelmente. É o voto de protesto, que tanta falta fará ao PS em tempo de eleições. E mais sintomático ainda: no debate televisivo da SIC que fizeram os quatro candidatos a Presidentes do PPD/PSD, pelo menos dois deles só falaram nas desigualdades sociais e na pobreza, que importa combater eficazmente. Poderá isso relevar - dirão alguns - da pura demagogia. Mas é significativo. Do que sentem os portugueses. Não lhes parece?...|
Via : http://dn.sapo.pt/2008/05/27/opiniao/pobreza_e_desigualdades.html
Geostratégia em mudança
Bush está no fim.
Os Estados Unidos, felizmente, perderam as ilusões. As múltiplas crises que a globalização neoliberal, sob a hegemonia norte-americana, têm gerado, desacreditaram o sistema: o unilateralismo internacional, com a América do Norte, polícia do mundo – e a consequente marginalização das Nações Unidas – pertencem ao passado.
Assistimos ao nascimento de um outro mundo: multilateral, com vários países e blocos emergentes, concorrentes entre si, eventualmente conflituais, mas sujeitos às mesmas crises – terríveis, deste início de século –, e esperemos que se possam entender para lhes fazer face. Vivemos no mesmo mundo. O senso comum exige-o.
A opinião pública global começa a emergir e a ser actuante.
A crise toca-nos a todos, quase por igual. Sejam as alterações climáticas e as desordens ecológicas do planeta, seja a crise alimentar e o espectro da fome, seja a desregulação internacional, o terrorismo, os fanatismos religiosos, o acréscimo da violência ou a carência gritante de umas Nações Unidas incapazes de se reestruturar, na fidelidade à sua Carta, à Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos Objectivos do Milénio.
A América do Norte, a cinco meses da escolha de um novo Presidente, suscitou no Ocidente uma pausa reflexiva, que esperemos seja criadora. A União Europeia, que podia – e devia – antecipar-se, continua paralisada, dada a mediocridade e falta de audácia dos seus principais dirigentes. Sem rumo nem vontade.
Pelo contrário, a Ibero-América, tantos anos esmagada pela «colonização» do vizinho do Norte, passada a época das ditaduras dependentes, instruídas pelos chamados «boys de Chicago», aproveitou os anos da distracção provocados pela guerra do Iraque para consolidar as suas democracias e emergir em força.
A variedade ibero-americana, na unidade de duas línguas em expansão, que podem entender-se entre si – o espanhol e o português –, tem sido um factor de riqueza, com a inovação e o génio criador dos respectivos povos mesclados: brancos, índios, negros, mulatos, asiáticos.
O Brasil, que é um colosso, pela largueza e riqueza do território, pela densidade populacional e pelo génio do seu Povo, é um exemplo, nos últimos anos, de progresso e de boa governação. O México, outro país emergente, na fronteira dos Estados Unidos, busca um equilíbrio e uma independência económica ainda não completamente atingidos. A Argentina, o Chile, o Uruguai, diversificam as suas alianças e têm hoje relações comerciais significativas com novos investidores como a China, o Japão, o Canadá, sem esquecer obviamente a Europa.
A Venezuela, com as maiores reservas petrolíferas do mundo, irrita especialmente a administração Bush, com a qual Hugo Chávez não tem sido especialmente meigo. Tem criado uma rede de solidariedades que vai de Cuba, na complexidade da fase pós-Fidel, à Bolívia de Evo Morales, um indígena à frente de um Estado ibero-americano, ao Equador, ao Paraguai, ao Haiti e à Nicarágua, sob o signo do chamado «socialismo bolivariano». E tem relações económicas relevantes, não apenas no plano energético, com a Rússia, a China, o Canadá e o Irão.
Na União Europeia, é com a Península Ibérica – Portugal e Espanha – que a Venezuela se tem entendido melhor.
É natural. As raízes contam. Mas outros países europeus estão a procurar desenvolvê-las. Zapatero, no encontro de Lima, fez as pazes com Chávez, transmitindo-lhe uma mensagem apaziguadora do Rei. Foi importante. A senhora Merkel seguiu o exemplo. A geopolítica global está em mudança, regressando aos valores éticos essenciais.
Bem agiu José Sócrates quando, acompanhado de ministros, empresários e técnicos, fez uma visita histórica a Caracas, altamente produtiva para Portugal. Para além de tudo o mais – que é muito – temos cerca de 600 mil portugueses a viver e a trabalhar na Venezuela...
Via: http://aeiou.visao.pt/Opiniao/mariosoares/Pages/Geostrategiaemmudanca.aspx
Os Estados Unidos, felizmente, perderam as ilusões. As múltiplas crises que a globalização neoliberal, sob a hegemonia norte-americana, têm gerado, desacreditaram o sistema: o unilateralismo internacional, com a América do Norte, polícia do mundo – e a consequente marginalização das Nações Unidas – pertencem ao passado.
Assistimos ao nascimento de um outro mundo: multilateral, com vários países e blocos emergentes, concorrentes entre si, eventualmente conflituais, mas sujeitos às mesmas crises – terríveis, deste início de século –, e esperemos que se possam entender para lhes fazer face. Vivemos no mesmo mundo. O senso comum exige-o.
A opinião pública global começa a emergir e a ser actuante.
A crise toca-nos a todos, quase por igual. Sejam as alterações climáticas e as desordens ecológicas do planeta, seja a crise alimentar e o espectro da fome, seja a desregulação internacional, o terrorismo, os fanatismos religiosos, o acréscimo da violência ou a carência gritante de umas Nações Unidas incapazes de se reestruturar, na fidelidade à sua Carta, à Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos Objectivos do Milénio.
A América do Norte, a cinco meses da escolha de um novo Presidente, suscitou no Ocidente uma pausa reflexiva, que esperemos seja criadora. A União Europeia, que podia – e devia – antecipar-se, continua paralisada, dada a mediocridade e falta de audácia dos seus principais dirigentes. Sem rumo nem vontade.
Pelo contrário, a Ibero-América, tantos anos esmagada pela «colonização» do vizinho do Norte, passada a época das ditaduras dependentes, instruídas pelos chamados «boys de Chicago», aproveitou os anos da distracção provocados pela guerra do Iraque para consolidar as suas democracias e emergir em força.
A variedade ibero-americana, na unidade de duas línguas em expansão, que podem entender-se entre si – o espanhol e o português –, tem sido um factor de riqueza, com a inovação e o génio criador dos respectivos povos mesclados: brancos, índios, negros, mulatos, asiáticos.
O Brasil, que é um colosso, pela largueza e riqueza do território, pela densidade populacional e pelo génio do seu Povo, é um exemplo, nos últimos anos, de progresso e de boa governação. O México, outro país emergente, na fronteira dos Estados Unidos, busca um equilíbrio e uma independência económica ainda não completamente atingidos. A Argentina, o Chile, o Uruguai, diversificam as suas alianças e têm hoje relações comerciais significativas com novos investidores como a China, o Japão, o Canadá, sem esquecer obviamente a Europa.
A Venezuela, com as maiores reservas petrolíferas do mundo, irrita especialmente a administração Bush, com a qual Hugo Chávez não tem sido especialmente meigo. Tem criado uma rede de solidariedades que vai de Cuba, na complexidade da fase pós-Fidel, à Bolívia de Evo Morales, um indígena à frente de um Estado ibero-americano, ao Equador, ao Paraguai, ao Haiti e à Nicarágua, sob o signo do chamado «socialismo bolivariano». E tem relações económicas relevantes, não apenas no plano energético, com a Rússia, a China, o Canadá e o Irão.
Na União Europeia, é com a Península Ibérica – Portugal e Espanha – que a Venezuela se tem entendido melhor.
É natural. As raízes contam. Mas outros países europeus estão a procurar desenvolvê-las. Zapatero, no encontro de Lima, fez as pazes com Chávez, transmitindo-lhe uma mensagem apaziguadora do Rei. Foi importante. A senhora Merkel seguiu o exemplo. A geopolítica global está em mudança, regressando aos valores éticos essenciais.
Bem agiu José Sócrates quando, acompanhado de ministros, empresários e técnicos, fez uma visita histórica a Caracas, altamente produtiva para Portugal. Para além de tudo o mais – que é muito – temos cerca de 600 mil portugueses a viver e a trabalhar na Venezuela...
Via: http://aeiou.visao.pt/Opiniao/mariosoares/Pages/Geostrategiaemmudanca.aspx
Gasolina
Há dias escreveu-se aqui que o capitalismo era o maior libertador da história. A frase perturbou algumas almas sensíveis.
André Macedo
Compreende-se o escândalo. As palavras não são apenas o que elas dizem literalmente, são também as circunstâncias histórias que carregam e que, demasiadas vezes, contaminam a sua compreensão. Capitalismo e revolução, em pólos aparentemente opostos, são dois bons exemplos deste mal-entendido: há quem sinta o estômago às voltas só de as ouvir.
Não é caso para tanto. Quando se diz que o capitalismo liberta, não significa que se pretenda apagar os erros e os abusos do filho primogénito do capitalismo: o mercado. Seria ridículo e revelaria uma enorme ignorância. A exploração dos mais fracos nos países em vias de desenvolvimento confirma a imperfeição do mercado e das suas diversas manifestações, exportações e consequências. Não é sequer preciso ir tão longe para apontar os erros: os simples abusos das empresas nas economias desenvolvidas também reflectem as insuficiências do capitalismo. Mas daí não resulta a sua condenação à cadeira eléctrica. Significa apenas a necessidade de introduzir mecanismos de correcção dos seus falhanços. Ou seja, tribunais e reguladores que defendam, com equilíbrio, os interesses das pessoas.
Dito isto, repete-se o essencial: os mercados abertos e a concorrência – características que definem as democracias liberais – são poderosas sondas que atacam as bolsas de ineficiência, disciplinam as empresas e os governos, promovem a qualidade e o progresso. As manifestações do sucesso das economias abertas estão, por isso, todos os dias nas páginas dos jornais em grandes títulos ou em registos mais prosaicos. É o caso da guerra entre a Zon e a PT. Agora que as empresas se separaram, passou a haver mais concorrência entre os fornecedores de televisão. Quem ganha? O consumidor, claro, que hoje já recebe mais e melhor pelo mesmo preço.
No caso da gasolina o caso é mais intricado. Como resolver a escalada dos preços? Baixar o ISP seria uma solução desejável, mas é irrealista nos actuais dias de incerteza: o Governo não dividirá uma parte dos 2,8 mil milhões de receitas que conta receber este ano. Também seria uma monstruosidade intervir e condicionar o preço. A prazo, a consequência seria brutal e iríamos todos – com ou sem carro – pagar a factura. Sobra uma saída e uma esperança: confiar no regulador (AdC), que terá de manter-se alerta para ver se as gasolineiras estão a formar um cartel; e esperar que haja cada vez mais concorrência. A culpa não é da Galp. O problema é que só há uma Galp em Portugal. Com duas, só poderíamos estar melhor. Para os problemas de mercado há outro remédio: mais mercado.
Comentários
vg
Pura ingenuidade.Acha que a Zon e a "mãe" PT estão em concorrencia? O "triplay" da PT não era já conhecido dos chefes da Zon?A caixa "digital" da Zon não é uma tecnologia mais que conhecida ,que só peca por vir atrasada e cara?O que conseguiram foi este "faz de conta"de competição que, só é possível por falta de concorrencia a sério( gestão da Soanaecom é incomprensível).Se forem aos arquivos, verão que a Galp é ,há 50 anos ,líder do mercado e os outros vão ganhando o seu,comprando nas refinarias locais ,mantendo o "satus quo".Capitalismo de concorrencia?Querem maior escandalo do que o que se passou com o sector bancário?Este capitalismo não dispensa carteis e monopólios.Aliás previstos ,há mais de um século..
NapoLeão
Claro que a esta hora o camarada Karl Marx deve andar "aos pulos na sua sepultura londrina". Andassem os nossos ilustríssimos governates de metro, autocarro, comboio ou num Honda Jazz, Toyota Yaris, Renault Twingo e pagando dos seus bolsos e, perceberiam com a vida não está fácil. Mas como as deslocações são em Audis, BMW ou Mercedes pagos pelo orçamento, claro que não são sensíveis ao custo de vida. Já "ganharam o Céu" !!!
JOAMOR (joãodeamorim.amorim@gmail.com)
Deixemos o mercado funcionar e convençamo-nos de que os dias de ilusória prosperância já lá vão.Vamos passar a viver ao nivel das nossas possibilidades e lembremo-nos que ocupamos dos últimos lugares na Europa a 27 em termos de produtividade. Eu ando a pé, e nego-me a subsidiar gasolina para o pó pó daqueles que não se querem dar a essa chatisse.
Jose
Está enganado. Os 2,8 mil milhões de euros que o Estado recebe é que serão a morte da economia. O cadáver vai ficar sem sangue. Provar que há cartel? Sabe que está a lidar com as entidades mais poderosas do planeta? A BP, a Repsol, a Exxon, a Chevron, a Total ou a Shell mandam mais do que o Estado Americano....
Via: Diário Económico
André Macedo
Compreende-se o escândalo. As palavras não são apenas o que elas dizem literalmente, são também as circunstâncias histórias que carregam e que, demasiadas vezes, contaminam a sua compreensão. Capitalismo e revolução, em pólos aparentemente opostos, são dois bons exemplos deste mal-entendido: há quem sinta o estômago às voltas só de as ouvir.
Não é caso para tanto. Quando se diz que o capitalismo liberta, não significa que se pretenda apagar os erros e os abusos do filho primogénito do capitalismo: o mercado. Seria ridículo e revelaria uma enorme ignorância. A exploração dos mais fracos nos países em vias de desenvolvimento confirma a imperfeição do mercado e das suas diversas manifestações, exportações e consequências. Não é sequer preciso ir tão longe para apontar os erros: os simples abusos das empresas nas economias desenvolvidas também reflectem as insuficiências do capitalismo. Mas daí não resulta a sua condenação à cadeira eléctrica. Significa apenas a necessidade de introduzir mecanismos de correcção dos seus falhanços. Ou seja, tribunais e reguladores que defendam, com equilíbrio, os interesses das pessoas.
Dito isto, repete-se o essencial: os mercados abertos e a concorrência – características que definem as democracias liberais – são poderosas sondas que atacam as bolsas de ineficiência, disciplinam as empresas e os governos, promovem a qualidade e o progresso. As manifestações do sucesso das economias abertas estão, por isso, todos os dias nas páginas dos jornais em grandes títulos ou em registos mais prosaicos. É o caso da guerra entre a Zon e a PT. Agora que as empresas se separaram, passou a haver mais concorrência entre os fornecedores de televisão. Quem ganha? O consumidor, claro, que hoje já recebe mais e melhor pelo mesmo preço.
No caso da gasolina o caso é mais intricado. Como resolver a escalada dos preços? Baixar o ISP seria uma solução desejável, mas é irrealista nos actuais dias de incerteza: o Governo não dividirá uma parte dos 2,8 mil milhões de receitas que conta receber este ano. Também seria uma monstruosidade intervir e condicionar o preço. A prazo, a consequência seria brutal e iríamos todos – com ou sem carro – pagar a factura. Sobra uma saída e uma esperança: confiar no regulador (AdC), que terá de manter-se alerta para ver se as gasolineiras estão a formar um cartel; e esperar que haja cada vez mais concorrência. A culpa não é da Galp. O problema é que só há uma Galp em Portugal. Com duas, só poderíamos estar melhor. Para os problemas de mercado há outro remédio: mais mercado.
Comentários
vg
Pura ingenuidade.Acha que a Zon e a "mãe" PT estão em concorrencia? O "triplay" da PT não era já conhecido dos chefes da Zon?A caixa "digital" da Zon não é uma tecnologia mais que conhecida ,que só peca por vir atrasada e cara?O que conseguiram foi este "faz de conta"de competição que, só é possível por falta de concorrencia a sério( gestão da Soanaecom é incomprensível).Se forem aos arquivos, verão que a Galp é ,há 50 anos ,líder do mercado e os outros vão ganhando o seu,comprando nas refinarias locais ,mantendo o "satus quo".Capitalismo de concorrencia?Querem maior escandalo do que o que se passou com o sector bancário?Este capitalismo não dispensa carteis e monopólios.Aliás previstos ,há mais de um século..
NapoLeão
Claro que a esta hora o camarada Karl Marx deve andar "aos pulos na sua sepultura londrina". Andassem os nossos ilustríssimos governates de metro, autocarro, comboio ou num Honda Jazz, Toyota Yaris, Renault Twingo e pagando dos seus bolsos e, perceberiam com a vida não está fácil. Mas como as deslocações são em Audis, BMW ou Mercedes pagos pelo orçamento, claro que não são sensíveis ao custo de vida. Já "ganharam o Céu" !!!
JOAMOR (joãodeamorim.amorim@gmail.com)
Deixemos o mercado funcionar e convençamo-nos de que os dias de ilusória prosperância já lá vão.Vamos passar a viver ao nivel das nossas possibilidades e lembremo-nos que ocupamos dos últimos lugares na Europa a 27 em termos de produtividade. Eu ando a pé, e nego-me a subsidiar gasolina para o pó pó daqueles que não se querem dar a essa chatisse.
Jose
Está enganado. Os 2,8 mil milhões de euros que o Estado recebe é que serão a morte da economia. O cadáver vai ficar sem sangue. Provar que há cartel? Sabe que está a lidar com as entidades mais poderosas do planeta? A BP, a Repsol, a Exxon, a Chevron, a Total ou a Shell mandam mais do que o Estado Americano....
Via: Diário Económico
sábado, 17 de maio de 2008
A Globalização Neoliberal Não É O Problema
por Rick Wolff [*]
O capitalismo é.
As pessoas de esquerda que têm como alvo a globalização neoliberal denunciam a privatização, os mercados livres, a mobilidade sem peias do capital e as desregulamentações governamentais da indústria. Elas propõem, como alternativa, que governos nacionais ou supra-nacionais controlem e regulem transacções de mercado e especialmente movimentos de capital, aumentem impostos sobre os lucros e a riqueza, e até mesmo possuam e operem indústrias. "Tudo nos interesses do povo", dizem elas, democraticamente.
Mas a crítica de Marx ao capitalismo nunca teve como foco regulamentações governamentais e indústrias de propriedade estatal. Isto nunca foi a sua solução para os custos, injustiças e desperdícios do capitalismo. Ao invés disso, Marx apontava e enfatizava a "estrutura de classe" da produção no capitalismo. Com isto referia-se ao modo como as empresas produtivas eram organizadas internamente: minúsculos grupos de pessoas (conselhos de administração) que se apropriavam de uma porção – o "excedente" – daquilo que os trabalhadores produziam e a empresa vendia. Marx definiu tal apropriação do excedente como "exploração". E, como disse Marx, a exploração capitalista pode existir quer aqueles apropriadores sejam conselhos de administração corporativos (capitalismo privado) ou responsáveis estatais (capitalismo de Estado).
Marx opôs-se à exploradora estrutura de classe da produção no capitalismo nos planos político, ético e económico. Ele preferia uma alternativa comunista onde trabalhadores produtivos funcionassem como os seus próprios conselhos de administração, apropriando e distribuindo colectivamente os excedentes que produzissem. Igualdade e democracia, argumentou ele, exigiam a abolição da exploração como condição necessária para a sua realização.
O capitalismo como sistema sempre e por toda a parte atravessou fases, guinadas repetidas entre duas formas alternativas. O capitalismo privado é a forma neoliberal, "laissez-faire": a intervenção do governo em assuntos económicos é minimizada, e os indivíduos e negócios interagem em grande medida através de trocas voluntárias no mercado. A outra forma é a estatal-intervencionista, "social-democrata", o capitalismo do Estado Providência: o governo administra a economia através da regulamentação daquilo que os capitalistas privados podem fazer ou, alguma vezes, até assumindo o comando das suas empresas a fim fazer com que as decisões dos negócios fiquem em linha com as decisões governamentais.
A cada poucas décadas, todo país capitalista, seja qual for destas duas formas que tenha estado em vigor, entra em sérias dificuldades económicas. Trabalhadores perdem empregos, rendimentos declinam, empresas falem, e assim por diante. Levanta-se então o clamor do "alguma coisa tem de ser feita". Aqueles que sentem sofrimento mínimo e ganham bom dinheiro preferem deixar a forma existente de capitalismo corrigir-se por si própria. Aqueles mais feridos e que perdem dinheiro pedem mais mudanças drásticas. Quando este segundo grupo prevalece politicamente, a forma existente de capitalismo é finalizada e instalada a outra. Umas poucas décadas mais tarde o mesmo drama é representado ao contrário.
Quando um próspero capitalismo privado nos EUA chocou-se contra um muro de pedra em 1929, o país comutou para o capitalismo do Estado Providência (welfare-state). Quando as décadas de 1960 e 1970 produziram crise naquele capitalismo do Estado Providência, o país comutou outra vez para o capitalismo privado (neoliberalismo). Agora, depois de trinta anos de capitalismo privado globalizado provocar a proliferação de dificuldades, demasiada gente de esquerda aderiu ao coro dos que vêem como única solução uma outra guinada para capitalismo do Estado Providência. O legado de Coolidge e Hoover foi derrubado pelo coro de FDR. O legado do New Deal foi derrubado pelo coro de Ronald Reagan. O legado de Reagan-Bush pode agora ser derrubado pelo de Clinton, Obama, et alii. Tais reversões de fase entre as duas formas de capitalismo ocorrem quase por toda a parte, variando apenas com as condições e a história particular de cada país.
Como formas, o capitalismo privado e de Estado são oscilações de fase do sistema capitalista. Quando uma fase não pode resolver os seus problemas, a solução tem sido uma comutação para a outra fase. Assim, as crises de capitalismo até então evitaram provocar a solução alternativa de uma transição para fora do capitalismo. Mas aquela transição era precisamente o objectivo de Marx. Ele pretendia persuadir os trabalhadores que as oscilações entre capitalismo de Estado e privado não eram as melhores soluções para os fracassos do capitalismo, pelo menos não para os trabalhadores.
Muita gente de esquerda de hoje cataloga os terríveis resultados de 25 anos de domínio neoliberal: crises económicas e sociais agravando cada vez mais profundamente desigualdades de riqueza, rendimento e poder por todo o lado e dentro da maior parte dos países. Eles mencionam a explosão de bolhas de investimento, explosões de dívidas insustentáveis, mercados de crédito em colapso, ameaças de recessão, desmoronamento de serviços sociais, produção de mercadorias inseguras, e assim por diante. Eles propõem "soluções": que governos – nacionais ou talvez agora supranacionais – devem ser relembrados, por um levantamento democrático, do seu próprio papel. Os governos deveriam limitar, controlar, regular ou substituir empresas capitalistas privadas no interesse do povo.
Este modo de pensar repete os erros da esquerda na década de 1930. Então, quando o capitalismo privado havia implodido na Grande Depressão, a deterioração das condições voltou a maior parte dos americanos contra as preferências do Republicano Herbert Hoover e a favor do Democrata FDR. Uma nova era de intervenção económica governamental ganhou o nome de Teoria Económica Keynesiana. Contudo, o keynesianismo do New Deal sempre manteve no lugar os conselhos de administração das corporações capitalistas que dominavam a economia dos EUA. Aqueles conselhos permaneceram como os receptores do excedente produzido pelos seus trabalhadores – os "lucros" das corporações. Eles utilizaram aqueles lucros para fazer crescer as corporações, fazer ainda mais lucros, pagar salários mais altos aos responsáveis de topo, influenciar a política, e assim por diante.
O capitalismo do Estado Providência nos EUA agravou impostos, regulamentos e limites – e alternativas de emprego em massa – para aquelas corporações privadas. Mas ao deixar os seus conselhos de administração no lugar como receptores e distribuidores de lucros corporativos, o Estado Providência assinou a sua própria sentença de morte. Os conselhos de administração tinham o desejo e os meios para desfazer o Estado Providência. Custou-lhes apenas um momento mudar a opinião pública e construir um rico e poderoso movimento liderado pelos negócios a fim de alcançar seus objectivos. Na administração Reagan e desde então, potenciado por uma crise do Estado Providência nos anos 1960 e 1970, eles tiveram êxito em mudar os EUA e além disso retroceder a uma fase do capitalismo privado a que chamamos "globalização neoliberal".
Compreensivelmente, muitas pessoas não podem ver além das duas fases do capitalismo ou dos debates, lutas e transições entre elas. Mas a gente de esquerda que não vê mais além – que critica a globalização neoliberal e advoga um requentado keynesianismo do Estado Providência – abandonou o projecto crítico anti-capitalista de Marx. Elas tornaram-se apenas um outro coro para mais uma oscilação de retorno para a forma de capitalismo do Estado Providência.
As classes trabalhadoras precisam e merecem algo melhor do que isso, agora mais do que nunca.
[*] Professor de Ciências Económica na Universidade de Massachusetts - Amherst. Autor de numerosos livros e artigos , incluindo (com Stephen Resnick) Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR (Routledge, 2002) e (com Stephen Resnick) New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006).
O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/wolff041207.html
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
O capitalismo é.
As pessoas de esquerda que têm como alvo a globalização neoliberal denunciam a privatização, os mercados livres, a mobilidade sem peias do capital e as desregulamentações governamentais da indústria. Elas propõem, como alternativa, que governos nacionais ou supra-nacionais controlem e regulem transacções de mercado e especialmente movimentos de capital, aumentem impostos sobre os lucros e a riqueza, e até mesmo possuam e operem indústrias. "Tudo nos interesses do povo", dizem elas, democraticamente.
Mas a crítica de Marx ao capitalismo nunca teve como foco regulamentações governamentais e indústrias de propriedade estatal. Isto nunca foi a sua solução para os custos, injustiças e desperdícios do capitalismo. Ao invés disso, Marx apontava e enfatizava a "estrutura de classe" da produção no capitalismo. Com isto referia-se ao modo como as empresas produtivas eram organizadas internamente: minúsculos grupos de pessoas (conselhos de administração) que se apropriavam de uma porção – o "excedente" – daquilo que os trabalhadores produziam e a empresa vendia. Marx definiu tal apropriação do excedente como "exploração". E, como disse Marx, a exploração capitalista pode existir quer aqueles apropriadores sejam conselhos de administração corporativos (capitalismo privado) ou responsáveis estatais (capitalismo de Estado).
Marx opôs-se à exploradora estrutura de classe da produção no capitalismo nos planos político, ético e económico. Ele preferia uma alternativa comunista onde trabalhadores produtivos funcionassem como os seus próprios conselhos de administração, apropriando e distribuindo colectivamente os excedentes que produzissem. Igualdade e democracia, argumentou ele, exigiam a abolição da exploração como condição necessária para a sua realização.
O capitalismo como sistema sempre e por toda a parte atravessou fases, guinadas repetidas entre duas formas alternativas. O capitalismo privado é a forma neoliberal, "laissez-faire": a intervenção do governo em assuntos económicos é minimizada, e os indivíduos e negócios interagem em grande medida através de trocas voluntárias no mercado. A outra forma é a estatal-intervencionista, "social-democrata", o capitalismo do Estado Providência: o governo administra a economia através da regulamentação daquilo que os capitalistas privados podem fazer ou, alguma vezes, até assumindo o comando das suas empresas a fim fazer com que as decisões dos negócios fiquem em linha com as decisões governamentais.
A cada poucas décadas, todo país capitalista, seja qual for destas duas formas que tenha estado em vigor, entra em sérias dificuldades económicas. Trabalhadores perdem empregos, rendimentos declinam, empresas falem, e assim por diante. Levanta-se então o clamor do "alguma coisa tem de ser feita". Aqueles que sentem sofrimento mínimo e ganham bom dinheiro preferem deixar a forma existente de capitalismo corrigir-se por si própria. Aqueles mais feridos e que perdem dinheiro pedem mais mudanças drásticas. Quando este segundo grupo prevalece politicamente, a forma existente de capitalismo é finalizada e instalada a outra. Umas poucas décadas mais tarde o mesmo drama é representado ao contrário.
Quando um próspero capitalismo privado nos EUA chocou-se contra um muro de pedra em 1929, o país comutou para o capitalismo do Estado Providência (welfare-state). Quando as décadas de 1960 e 1970 produziram crise naquele capitalismo do Estado Providência, o país comutou outra vez para o capitalismo privado (neoliberalismo). Agora, depois de trinta anos de capitalismo privado globalizado provocar a proliferação de dificuldades, demasiada gente de esquerda aderiu ao coro dos que vêem como única solução uma outra guinada para capitalismo do Estado Providência. O legado de Coolidge e Hoover foi derrubado pelo coro de FDR. O legado do New Deal foi derrubado pelo coro de Ronald Reagan. O legado de Reagan-Bush pode agora ser derrubado pelo de Clinton, Obama, et alii. Tais reversões de fase entre as duas formas de capitalismo ocorrem quase por toda a parte, variando apenas com as condições e a história particular de cada país.
Como formas, o capitalismo privado e de Estado são oscilações de fase do sistema capitalista. Quando uma fase não pode resolver os seus problemas, a solução tem sido uma comutação para a outra fase. Assim, as crises de capitalismo até então evitaram provocar a solução alternativa de uma transição para fora do capitalismo. Mas aquela transição era precisamente o objectivo de Marx. Ele pretendia persuadir os trabalhadores que as oscilações entre capitalismo de Estado e privado não eram as melhores soluções para os fracassos do capitalismo, pelo menos não para os trabalhadores.
Muita gente de esquerda de hoje cataloga os terríveis resultados de 25 anos de domínio neoliberal: crises económicas e sociais agravando cada vez mais profundamente desigualdades de riqueza, rendimento e poder por todo o lado e dentro da maior parte dos países. Eles mencionam a explosão de bolhas de investimento, explosões de dívidas insustentáveis, mercados de crédito em colapso, ameaças de recessão, desmoronamento de serviços sociais, produção de mercadorias inseguras, e assim por diante. Eles propõem "soluções": que governos – nacionais ou talvez agora supranacionais – devem ser relembrados, por um levantamento democrático, do seu próprio papel. Os governos deveriam limitar, controlar, regular ou substituir empresas capitalistas privadas no interesse do povo.
Este modo de pensar repete os erros da esquerda na década de 1930. Então, quando o capitalismo privado havia implodido na Grande Depressão, a deterioração das condições voltou a maior parte dos americanos contra as preferências do Republicano Herbert Hoover e a favor do Democrata FDR. Uma nova era de intervenção económica governamental ganhou o nome de Teoria Económica Keynesiana. Contudo, o keynesianismo do New Deal sempre manteve no lugar os conselhos de administração das corporações capitalistas que dominavam a economia dos EUA. Aqueles conselhos permaneceram como os receptores do excedente produzido pelos seus trabalhadores – os "lucros" das corporações. Eles utilizaram aqueles lucros para fazer crescer as corporações, fazer ainda mais lucros, pagar salários mais altos aos responsáveis de topo, influenciar a política, e assim por diante.
O capitalismo do Estado Providência nos EUA agravou impostos, regulamentos e limites – e alternativas de emprego em massa – para aquelas corporações privadas. Mas ao deixar os seus conselhos de administração no lugar como receptores e distribuidores de lucros corporativos, o Estado Providência assinou a sua própria sentença de morte. Os conselhos de administração tinham o desejo e os meios para desfazer o Estado Providência. Custou-lhes apenas um momento mudar a opinião pública e construir um rico e poderoso movimento liderado pelos negócios a fim de alcançar seus objectivos. Na administração Reagan e desde então, potenciado por uma crise do Estado Providência nos anos 1960 e 1970, eles tiveram êxito em mudar os EUA e além disso retroceder a uma fase do capitalismo privado a que chamamos "globalização neoliberal".
Compreensivelmente, muitas pessoas não podem ver além das duas fases do capitalismo ou dos debates, lutas e transições entre elas. Mas a gente de esquerda que não vê mais além – que critica a globalização neoliberal e advoga um requentado keynesianismo do Estado Providência – abandonou o projecto crítico anti-capitalista de Marx. Elas tornaram-se apenas um outro coro para mais uma oscilação de retorno para a forma de capitalismo do Estado Providência.
As classes trabalhadoras precisam e merecem algo melhor do que isso, agora mais do que nunca.
[*] Professor de Ciências Económica na Universidade de Massachusetts - Amherst. Autor de numerosos livros e artigos , incluindo (com Stephen Resnick) Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR (Routledge, 2002) e (com Stephen Resnick) New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006).
O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/wolff041207.html
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
Dicionário de Eufemismos
Venezuela: Dicionário de eufemismos da oposição liberal
por James Petras
Nos nossos tempos, os discursos e os escritos políticos são em grande medida a defesa do indefensável... Assim, a linguagem política tem de consistir sobretudo de eufemismos, de circunlóquios e de imprecisões absolutamente turvas... Tal fraseologia é necessária se alguém quiser nomear as coisas sem apelar aos respectivos quadros mentais. George Orwell, "Politics and the English Language", em Why I Write.
O processo político venezuelano no período pós-referendo (após 02/Dezembro/2007) experimentou um debate de largo alcance, no qual têm participado tanto críticos como apoiantes do caminho venezuelano para o socialismo. A extrema-direita e o Departamento de Estado dos EUA têm focado exclusivamente aquilo a que chamam a reacção popular contra o "autoritarismo" do Presidente Chavez, a sua "agenda radical" e têm procurado explorar a ocasião a fim de desacreditar o Presidente através da sabotagem dos esforços de Chavez (apoiado pela França e a maior parte dos regimes latino-americanos) para negociar uma troca de prisioneiros entre as guerrilhas das FARC-EP e o regime de Uribe na Colômbia.
Duas semanas após o referendo, o Governo Federal [dos EUA] fabricou um processo ligando o governo venezuelano a uma tentativa de financiar as eleições presidenciais na Argentina. A ofensiva de propaganda dos EUA e da extrema-direita falhou e atear qualquer resposta no interior da Venezuela e fracassou completamente.. Todos os principais aliados americanos na Europa (excepto a Inglaterra) e na América Latina (excepto o México e o Chile) repudiaram os ataques americanos contra Chavez. O discurso político anti-Chavez que tem tido alguma repercussão na Venezuela e em outros países, especialmente entre liberais, políticos, activistas progressistas e académicos social-democratas, tem sido articulado por académicos venezuelanos ligados a ONGs financiadas por fundações estrangeiras e que se posicionam como "centro-esquerda".
Uma leitura crítica textual dos escritos da centro-esquerda revela uma narrativa repleta de eufemismos, restrita à linguagem e retórica dos movimentos sociais mas que quando desconstruída revela uma hostilidade básica para com a análise de classe e a transformação social. Tal como George Orwell escreveu outrora, os intelectuais políticos são os mestres dos eufemismos, utilizando linguagens que obscurecem o significado de políticas reaccionárias. "A linguagem política é concebida para fazer com que mentiras soem verdadeiras e o assassínio respeitável, a fim de dar uma aparência de solidez ao simples vento" (George Orwell, Why I Write).
A RETÓRICA LIGHT
Os ideólogos académicos de centro-esquerda da Venezuela dominaram todo um repertório de eufemismos, os quais põem em acção para atingir objectivos políticos específicos: Unir tecnocratas e liberais incrementalistas no governo Chavez com a oposição liberal a fim de bloquear qualquer transformação social igualitária das relações de propriedade e da transição para o socialismo. Como declarou um dos mais ilustres estadistas e antigo ministro da Cultura de Cuba, Armando Hart, "A batalha de ideias é parte integral da luta pelo socialismo". Um primeiro passo para desmistificar a retórica da centro-esquerda corporificada na sua narrativa contra-revolucionária é aplicar a análise crítica a alguns dos eufemismos políticos chave que eles utilizam para atacar o governo Chavez e as suas políticas.
Eufemismos são abusos de linguagem utilizados pelos professores anti-Chavez para obscurecer interesses ideológicos e de classe e as suas lealdades. Para os objectivos deste ensaio, seleccionei um texto de Edgardo Lander, um eminente sociólogo venezuelano e crítico das tendências revolucionárias no governo chavista.
O seu ensaio "El Proceso político en Venezuela entra en un encrucijada crítica" é um exemplo excelente da utilização da linguagem política a fim de ofuscar as realidades políticas, confiando em eufemismos para dar "uma aparência de solidez ao que é puro vento".
No período pós-eleitoral, os críticos de centro-esquerda pediram um retorno ao "pluralismo" como um antídoto ao "autoritarismo". "Pluralismo" é um eufemismo para uma sociedade de classe (múltiplas classes = plural), na qual a classe capitalista domina o sistema eleitoral ("partidos plurais" = dominação pelos capitalistas que os financiam). "Pluralismo" é um eufemismo comum utilizado pelos académicos burgueses porque é um conceito vago e abstracto que obscurece as questões dos donos da propriedade e da concentração dos meios de produção e de comunicação. Na realidade, não há nada "plural" quanto às democracias capitalistas, por qualquer medição de poder e riqueza. A existência de múltiplas classes, políticos e partidos conta-nos pouco ou nada acerca das relações sociais, concentração de poder e desigualdades de acesso ao Estado.
DE QUEM É INDEPENDENTE UM BC?
Os críticos académicos de Chavez escrevem acerca da "independência do Banco Central". Esta noção vaga e abstracta implora a pergunta: independência de quem e para que interesses e propósitos? Bancos Centrais que não prestam contas a responsáveis eleitos respondem aos mercados financeiros, ou mais precisamente aos banqueiros internacionais e locais e aos investidores. Isto é obviamente o caso em quase todas as democracias capitalistas onde a selecção dos governadores do Bancos Centrais é baseada nos seus laços, histórias e relacionamentos favoráveis ("confiança") com o capital financeiro internacional. Em contraste, um Banco Central sujeito ao controle de responsáveis eleitos pode ser influenciado pelos eleitores, pela opinião pública e por movimentos sociais que os pressionem por políticas monetárias favoráveis.
Quando liberais objectam ao aumento do acesso das classes populares ao governo e à perda do monopólio da classe média em relação às verbas orçamentais do governo, eles recorrem a apelos a "políticas abertas". Isto é nomeadamente a reabertura das portas da frente da decisão política a conselheiros académicos liberais e social-democratas. "Políticas abertas" é um refrão apregoado frequentemente pelo Estado imperial americano quando as suas ONGs financiadas por fundações e redes políticas que pressionam pela "mudança de regime" consideram difícil avançar devido à maior vigilância para frustrar as suas operações de desestabilização. A questão evitada pelos críticos académicos é "aberta" para quem e "para que interesses políticos"? No caso da Venezuela, a "falta de abertura" real é em grande medida uma função do controle monopolista da oposição sobre 90% dos media electrónicos e impressos e do predomínio ideológico de académicos da oposição em universidades públicas e privadas e nas salas de aula (incluindo a Universidade Central da Venezuela). Em contraste, os sindicatos, associações comerciais, movimentos da sociedade civil de todas as tendências têm florescido durante a década Chavez – no que é talvez a mais vibrante expressão de "políticas abertas" no Hemisfério Ocidental. Nestas condições, o que significa então o apelo pelo recurso a "políticas abertas"? É simplesmente uma "defesa do indefensável" – a manutenção do controle monopolista privado dos mass media contra quaisquer tentativas de expandir e aprofundar o acesso popular e o controle sobre os meios de comunicação. Os académicos liberais não podem declarar simplesmente: "Não democratizem os media, nós defendemos o direito de os grandes conglomerados privados controlarem os media, incluindo o seu direito a incitar e defender golpes militares". Ao invés disso eles recorrem a eufemismos vazios como "políticas abertas" – com o efeito de desarmar o governo popular e minar suas tentativas de abrir o acesso dos mass media às classes populares e aos seus interesses. Uma das formas mais insidiosas dos esforços das classes dominantes americanas e europeias para minarem movimentos de massa autónomos é o financiamento, treino e proliferação das enganosamente auto-etiquetadas "Organizações Não Governamentais" (ONGs). Os críticos académicos liberais (CAL) do governo democraticamente eleito de Chavez reflectem e imitam a retóricas das ONGs – acusando a Venezuela de falta de participação popular e desencorajando "o debate aberto e democrático". Os CAL nunca consideram a anomalia de que os líderes das ONGs nunca sejam eleitos, que as suas propostas de financiamentos externos nunca sejam debatidas ou votadas pelos seus auto-designados beneficiários e que elas moldem as actividades a fim de induzir os doadores das elites estrangeiras a financiarem os seus salários em divisas duras e veículos 4x4, computadores portáteis e a sua "equipe de secretárias", etc... Os maiores inimigos da responsabilização democráticas são as ONGs que nunca são criticadas ou mesmo mencionadas nos escritos políticos dos CAL no "processo político" venezuelano. A influência difusa e a proliferação de ONGs não é um factor menor no "processo político", menos ainda na Venezuela. À escala mundial há mais de 100 mil ONGs a receberem mais de US$20 mil milhões de dólares/euros dos centros imperiais. Ao contrário das auto-nomeadas ONGs e dos seus líderes e conselheiros académicos liberais, o Presidente Chavez consultou o eleitorado uma dúzia de vezes em eleições livres e abertas. Os seus programas são financiados pelos contribuintes venezuelanos e sujeitos à aprovação ou rejeição de legisladores eleitos.
Os académicos liberais ao invés de exprimirem abertamente a sua objecção ao crescimento radical do apoio de massa organizado e ao debate referente aos programas socio-económicos do Presidente Chavez, recorrem a eufemismos acerca do estilo "plebiscitário" de governação – esquecendo as autoritárias lições ditadas nas suas salas de aula estimuladas por administradores "eleitos" por um estreito círculo de professores com emprego vitalício.
ESTRANHA AMÁLGAMA
Alguns dos eufemismos mais em voga dos críticos académicos liberais são "anti-estatismo", "sociedade civil" e "economia de mercado".
"Estatismo" evoca e está associado com uma poderosa estrutura vertical insensível que oprime e empobrece o povo, e que responde apenas a burocratas autoritários. Apesar de não haver dúvida que várias agências do Estado na Venezuela são ineficientes e falham na execução dos programas do governo (especialmente políticas redistributivas), apesar da propriedade pública e das políticas fiscais, especialmente a política energética tem conduzido a um vasto aumento do financiamento de serviços públicos (saúde, educação e distribuição de alimentos) para os 60% de venezuelanos com rendimento mais baixo. A oposição ao "estatismo" traz consigo uma estranha amálgama de liberais autoritários da extrema-direita (Hayek, Friedman), neoliberais social-democratas (Blair, Giddens, Lula, Sarkozy e seus seguidores venezuelanos) e anarquistas libertários. As principais fontes de financiamento dos think tank, jornais e investigações dos críticos do "estatismo" são a Fundação Ford, as Fundações Ebert e uma sopa de letras de siglas de outras instituições da classe dominante. A demonização do "Estado" é o que junta os ideólogos da extrema-direita e do centro-esquerda. Em nome da "liberdade" anti-estatista, das actividades sem restrições, desregulamentadas e vorazes de capitalistas privados nacionais, os monopólios, bancos e corporações transnacionais podem florescer. O Estado é a única instituição potencialmente capaz de conter, controlar e confrontar as corporações privadas gigantes. A questão fundamental não é o "anti-estatismo" mas a natureza de classe do Estado e sua responsabilidade para com a maioria do povo trabalhador. O mais oco e enganoso conceito manipulado pelos "anti-estatistas" críticos académicos liberais do Presidente Chavez é o de "sociedade civil" quando falam em "apoiar a sociedade civil contra o Estado".
"Sociedade civil" é um eufemismo para sociedade de classe, é um conceito que oculta divisões de classe fundamentais, organizações de classe conflitantes e relações de exploração. Versões abastardadas de "Escritos da prisão", de Gramsci, onde os seus censores fascistas forçaram-no a adoptar uma linguagem de Esopo, foram adoptadas pelos académicos liberais ao escreverem acerca de uma homogénea (sem classe) "sociedade civil" contra o "Estado" (opressivo). Na Venezuela, a "sociedade civil" está longe de ser homogénea, como é evidente com as suas profundas divisões de classe, polarização política e o abismo entre estratos da maioria popular que apoiam o Estado (liderado por Chavez) as classes altas. O discurso de oposição à "sociedade civil" é um dispositivo retórico utilizado pelos burocratas das ONGs e elites académicas liberais para obscurecerem a sua prática de colaboração de classe, o seu apoio ao capital privado contra a propriedade pública e atraírem assim grandes ajudas monetárias dos seus patrocinadores imperiais.
Um dos eufemismos mais habitualmente utilizados é a referência por parte dos críticos liberais e social-democratas das políticas de Chavez à "economia de mercado". Trata-se de outro esforços para dar uma aparência de solidez ao que é puro vento. Os mercados existiram durante milhares de ano por todo o mundo sob uma grande variedade de sociedades e economias – desde a tribal, feudal, escravocrata, mercantil, capitalismo competitivo e monopolista. Há mercados locais baseados em produtores de pequena escala e mercados mundiais dominados por menos de um milhar de corporações multinacinais e instituições financeiras. A utilização de "economia de mercado" evoca imagens falsas de transacções por produtores/países iguais, recordando um passado que nunca existiu. A real "economia de mercado" existente é dominada pela competição e cooperação em grande escala de monopólios, os quais penetram todas as economias não reguladas. O seu poder e exploração só pode ser contido por Estados nacionalistas ou socialistas que prestam contas a movimentos de classe organizados e ao planeamento central. Qualquer discussão honesta e leal deve colocar a questão das estratégias económicas e do papel do Estado e do mercado na sua apropriada moldura histórico-mundial: capital imperial, Estado nacional, movimentos e instituições com base de classe. Quando questões de democracia e participação são discutidas seriamente, o foco não deveria ser exclusivamente sobre Estados mas deveria incluir também associações influentes na sociedade. Não há qualquer discussão ou menção, por parte dos teóricos liberal democratas venezuelanos, da pluralidade de associações autoritárias, não participativas e dominadas pelas elite de negócios, organizações cívicas, conglomerados privados de media, partidos tradicionais e sindicatos. Os seus líderes são reeleitos repetidamente (alguns pela vida toda) sem discordância ou competição e nem mesmo consulta aos seus membros. Os académicos liberais, além de ignorarem a estrutura vertical profundamente autoritária das instituições dominantes na "sociedade civil", falham até mesmo em colocar a questão de como esta pluralidade da instituição ditatorial da elite é compatível com a democracia. A cegueira analítica e moral dos académicos liberais para com o profundamente enraizado domínio arbitrário sobre a cultura, a economia e a sociedade por parte desta elite anti-democrática é o outro lado da moeda da sua preocupação unilateral com o défice democrático em instituições públicas eleitas e em partidos, sindicatos e associações de moradores favoráveis a Chavez. A profunda falta de clareza dos críticos de Chavez e do expoentes da ideologia liberal está intimamente relacionada com o seu pressentimento de que falar claramente e com precisão desmascararia a sua defesa dos mercados capitalistas; a sua oposição ao "estatismo" como oposição à propriedade pública; o seu apoio a instituições autoritárias da elite é a sua defesa da "sociedade civil"; a sua oposição às iniciativas radicais com base de massa de Chavez é apresentada como "autonomia popular".
O MICROSCÓPIO E O TELESCÓPIO Os métodos dos críticos académicos liberais são tão reveladores da sua política reaccionária quanto as suas mal disfarçadas lealdades à classe dominante. Eles utilizam o microscópio para detectar defeitos no tecido dos movimentos sociais pro-Chavez, eleitores e políticas do governo Chavez, e um telescópio para descrever a descarada intervenção e colaboração em grande escala e a longo prazo do Estado imperial americano com os seus aliados venezuelanos. As exigências liberais são direccionadas unilateralmente para um lado do processo político. Um profundo criticismo em relação às organizações de Chavez, mas não para com os estudantes e académicos que foram financiados pelas agências do Estado americano. Aparentemente, a académicos que aceitam dinheiro do National Endowment for Democracy não se deveria pedir para "repensar criticamente" a sua colaboração com uma potência imperial que se comprometeu a destruir instituições democráticas. Os críticos académicos liberais confiam em subjectivos mexericos anedóticos para alimentar o seu rancor anti-Chavez, ao invés de factos abertos ao público. Preferem especular sobre a "ambiguidade presidencial" quanto ao resultado do referendo ao invés de ouvir e observar o imediato e franco reconhecimento da derrota no referendo pelo Presidente Chavez. A linguagem política do eufemismo é destinada a fazer com que mentiras soem verdadeiras, tornar a regra da exploração de classe respeitável e dar à retórica liberal-democrata a aparência de solidez. Este breve inventário do eufemismo é concebido para desmascarar as ideologias do anti-chavismo "light" e estimular o avanço do socialismo venezuelano.
05/Janeiro/2008 O original encontra-se em www.abpnoticias.com/boletin_temporal/contenido/articulos/petras_eufemismo.html Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
05/Janeiro/2008 O original encontra-se em www.abpnoticias.com/boletin_temporal/contenido/articulos/petras_eufemismo.html Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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